terça-feira, 19 de maio de 2015

Melhor


"No melhor pano cai a nódoa." foi uma frase que me ficou da minha adolescência, da melhor aluna e da quase-melhor-filha, não fosse nunca ser suficiente para ser a melhor, apesar de única. Não fosse nunca ser suficiente para ser "boa". Criei em mim um padrão de não falhar para justificar o direito a ser a melhor, porque, para as pessoas que nos importam, não queremos ser menos do que as suas pessoas preferidas: a melhor. E, se não somos, não somos bons. Habituei-me a sentir-me "quase boa" porque tinha tudo para ser a melhor mas faltava o reconhecimento, aquele que brilha nos olhos, se abre no sorriso e se mexe nos lábios das pessoas que nos validam quando dizem "Gosto de ti." O quase. O aquém. E este é um hábito que se incorpora, que quase não reconhece, não acredita e, no limite, rejeita que gostem de nós. Torna-se perversa esta coisa de quase não querer que gostem porque podemos não estar à altura, quando é tudo o que queremos desde o início, a coisa mais básica nisto de estar vivo: amar e ser amado.

Cresci a achar que o amor era difícil, a não conseguir corresponder aos amores assolapados que me assaltavam a rotina e me faziam recuar até ao esconderijo dos afetos e ficar lá, atrás do sorriso e da tentativa de corresponder ou atrás do nariz empinado e da fuga a sete pés. Tive dois relacionamentos na minha vida adulta completamente distintos (21-24/27-31 anos), com duas pessoas muito diferentes na personalidade, mas que tiveram em comum a vontade de me quererem nas suas vidas, de uma forma mais assertiva do que as minhas inseguranças, pessoas com amor a dobrar, não fosse eu não saber o que estava a fazer.

Hoje sinto-me mais capaz de aceitar as minhas imperfeições e as tuas, não para agradar mas porque estou mais focada no que sou e no que tenho e não no que poderia ser ou ter. Hoje não me apetece competir mas colaborar. Hoje não me apetece ser melhor do que a outra mas melhor do que ontem. Hoje não me faz sentido controlar, mas deixar ir e permitir. Hoje estou mais aberta a desconstruir os meus preconceitos e padrões. Está cá tudo na mesma, não sou diferente, mas sou mais.  

Hoje acho que o amor pode ser fácil se assumirmos que é um direito que nos assiste só por existirmos. Ainda assim, desistir de ser perfeita, de corresponder e de esperar é um exercício diário. Mas é este regresso à criança que me permite fazer novas escolhas e lidar melhor com as falhas, minhas e dos outros. Por uma humanização das pessoas. Por uma humanização do amor. 







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