Psiquiatria para malucos-mas-pouco


Psiquiatria. Sempre tive alguma resistência em relação à psiquiatria, não por não reconhecer a sua importância, mas por sentir que a maior parte dos profissionais se remetia à medicação em detrimento da dimensão emocional e dos afetos. Tive uma má experiência na única consulta a que tinha ido, quando tinha 21 anos. O senhor queria que eu tomasse o Prozac e ficou muito ofendido por eu demonstrar preferência pela psicoterapia, além de que foi muito pouco empático. Aconteceu aquilo que acontece muito: sentiu-se desafiado por eu já chegar à consulta com uma ideia do que se passava comigo e do que queria para mim. Deitei a receita fora e nunca mais voltei. Não consegui que me encaminhasse para a psicoterapia, pelo que tive de recorrer ao privado. Por outro lado, também tinha o exemplo da minha mãe que sempre fez medicação psiquiátrica sem nunca ter tido um médico que a levasse a olhar para a raiz do problema. E, na verdade, eu não acho que as coisas que sentimos ou os sintomas que se apresentam estejam errados. Podem não dar jeito nenhum, é verdade, mas acredito que tenham uma função e uma razão de ser, caso contrário é assumir que a natureza faz muito mal as coisas. 

As insónias durante o último ano levaram-me até à necessidade de recorrer a medicação, já como último recurso. Em Janeiro, tive a minha primeira consulta de psiquiatria no IPO, 4 anos depois do diagnóstico, E, como em tudo, eu não sou contra as coisas por si só, eu sou a favor de pessoas e de formas de estar que sinto que vão ao encontro das minhas necessidades e das necessidades que eu reconheço em tantas outras pessoas, o que, às vezes, não acontece. Avisei a Dra. F. para que me encaminhasse para uma colega porreirinha, ou seja, com quem eu me pudesse entender, face às minhas resistências, aos meus medos e àquilo em que acredito. 

Tive sorte. Encontrei uma psiquiatra que, não só não privilegia a medicação, como a entende como algo temporário, encaminha para a psicologia e faz todo um enquadramento dos sintomas na história do paciente, sem no entanto entrar no domínio que não lhe compete. Percebeu perfeitamente que os meus medos vinham de más experiências e que era preferível receitar-me um fármaco ao qual ela não era tão favorável mas com o qual me dou melhor. Foi negociado, é verdade. 

Também é verdade que os psicotrópicos me assustam, porque os sintomas cognitivos, a cabeça aluada, as dores de cabeça, a incapacidade de ouvir os outros ou processar a informação, a lentificação, tudo isso me deixa ainda pior. As benzodiazepinas não são as melhores para tomar durante largas temporadas, mas acabei por me dar bem com o Rivotril, um ansiolítico que me ajudou a recuperar as noites dormidas. Porque a noite é para dormir! Não me dei bem com o Zolpidem, com o Triticum e não sou muito fã da melatonina que induz o sono, mas que me faz ter noites e sonhos muito agitados. De repente, quando durmo sobre um assunto, percebo como a almofada é a melhor das conselheiras. No dia seguinte, o cérebro centrifugou tudo e, de manhã, a vida está como nova e a alegria de volta. 

Já fiquei melhor, já estive dois meses a dormir sem medicação, mas a coisa ainda está frágil, pelo que continuo com o Rivotril para apagar estes fogos e alguns óleos essenciais à cabeceira, como o de Alfazema da DoTerra. Sou péssima com a higiene do sono, mas já aprendi que mais vale deitar e desligar quando o sono chega porque muitas vezes é o sono que nem me visita! Às vezes também sinto que se me desperta uma inquietação criativa a más horas, o que me leva a crer que não estou a utilizar bem essa energia durante o dia (daí as visitas nocturnas)!

A lição a tirar é a de que, independentemente das soluções farmacológicas, é importante olhar para os sintomas, encontrar as pessoas certas para nos acompanhar, pedir ajuda e procurar resgatar os nossos ciclos naturais, se isso for uma coisa importante para nós. Há quem não esteja nem aí e tudo bem! Não estou muito disposta a fazer grandes experiências a nível químico neste campo, mas, se um fármaco resulta, não vou fazer uma guerra só porque preferia recorrer apenas a produtos naturais. O mais importante é recuperar o equilíbrio que permita fazer, então, o caminho com outra qualidade, exatamente no mesmo sentido para onde já queria ir antes. Tantas vezes a resistência ainda nos afasta mais do nosso caminho! Tenho aprendido isto!

Da conversa com a psiquiatra, ainda percebi que muitos progressos se têm feito desde o meu diagnóstico, em 2012, mas que também ainda muito caminho está por desbravar. Antigamente a preocupação era eliminar o cancro, o que levava tantas vezes a não olhar à destruição provocada pelos tratamentos. Hoje em dia, é crescente a preocupação com a qualidade de vida do sobrevivente. De que interessa sobreviver se não for para ter uma vida que se coadune com a dignidade e os direitos de quem vive após o cancro e após os tratamentos? Muito ainda há a fazer no apoio após a doença e na articulação com o médico de família - que ainda não existe - mas a ideia é a de que todo este caminho venha a ser desbravado e concretizado. Nos entretantos, ainda há muitas situações extremadas, mas pacientes pró-ativos só dão dores de cabeça a profissionais resistentes à mudança ou com egos muito inchados. Há quem queira andar para a frente, de mãos dadas. Estamos todos no mesmo barco. Queremos todos o mesmo. Assim espero. 




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