A ilusão de Ter


Ouvi algures que a vida nos era emprestada. A certa altura, teremos de a devolver. E é assim com tudo o que vamos tendo ao longo da vida. Vamos tendo. Na verdade, ter seja o que for é uma ilusão à qual nos agarramos por medo, medo que nos falte amor, dinheiro, sucesso, tecto, comida, saúde, objectos com que nos identificamos e que se tornam partes nossas que definem o nosso território. Até criámos determinantes e pronomes possessivos para assegurar que o chão não nos foge. Passamos a amar o que temos, como se o amor não existisse no não ter.

Criar uma vida de fé, confiar que teremos exactamente na medida que precisamos em determinada altura, não é propriamente fácil. A vida é impermanência e nunca sabemos o tempo que nos está destinado para cada conquista que fazemos. Até quando as crises e as perdas aparecem para nos obrigar a mudar, a deixar ir e a passar à fase seguinte da nossa evolução, queremos resgatar, recuperar, mudar a realidade, voltar a ter o que acreditamos que faz parte de nós, ou pior, que somos

Ter leva-nos a reter... para que nunca nos falte; para garantir que nada nos faltará, ignorando os sinais de que tudo o que nos acontece, tudo o que vamos tendo, é passageiro. Nas fases más, de maior dor, a impermanência é esperança - vai passar! Nas fases boas, a impermanência é saudade, é desejo, é querer muito, tanto que dói. Porque a vida dói. Para nos lembrarmos de a sentir. 

Só é dor se for vontade de agarrar. Só é fogo se queimar. Só é felicidade enquanto durar. Só é fogo se queimar... (Amor Electro)

P.S. Às vezes viver é mesmo brincar com o fogo. Mas quem não vai lá pôr a mão?



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