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quinta-feira, 3 de julho de 2014


Quarta-feira, 2 de Julho de 2014


No âmbito do projeto "Djunto no ta prendi fazi", apoiado pelo Programa Cidadania Ativa da Fundação Calouste Gulbenkian, a Associação Girassol Solidário apresenta, no espaço ArtCasa, a Exposição "A 11ª Ilha de Cabo Verde".

Este projeto visa capacitar os doentes caboverdianos que estão em Lisboa a fazer tratamentos que não são contemplados ainda em Cabo Verde e que são também voluntários da associação. Tem três valências, como o artigo do jornal cabo-verdiano "A Semana" especifica:

- Formação para a Saúde, ministrada pela Saúde em Português (a qual eu frequentei) para que os voluntários, que são eles próprios doentes evacuados, conheçam melhor as suas doenças e as dos conterrâneos que vão ajudar;

- Intervenção no terreno, para que estes voluntários conheçam todo o percurso e o trabalho dos técnicos no apoio aos doentes evacuados desde que chegam a Portugal e eles próprios intervenham activamente no processo;

- Expressão para a Cidadania, com a formadora Cindy Baptista, onde a expressão artística é facilitadora de processos de auto-conhecimento, reconhecimento e partilha de vivências, emoções e sonhos destes interlocutores, cujos trabalhos constam desta exposição.

A Cindy foi minha colega de pós-graduação, minha companheira na aventura de Cabo Verde e está empenhada, assim como eu, em continuar o caminho que não nos foi possível construir nesse país, o seu de origem. Cidadã do mundo e pintora de sonhos, sabe que as fronteiras são estabelecidas pelo homem, mas que entre almas não existem. As suas e as da sua Maçaroca traduzem-se em pontes que unem o que de mais bonito se faz entre os países que vão morando no seu coração e onde ela vai habitando criativamente. CriAtivamente.

Até 5 de Julho!



referências à terra (enxada) e à música (cavaquinho)


Os trabalhos são todos fantásticos mas seleccionei os dois que identifiquei com a minha CurAção:

Artista: Thierry Chaile
Ilha: São Vicente
Em tratamento desde: Abril 2014
Nome: Amor


Artista: Gonçalo Lima
Ilha: Santo Antão
Tratamento desde: Abril 2013
Nome: Conecta


Um pormenor do trabalho feito com o barro, onde os artistas projectaram as suas vivências

domingo, 29 de junho de 2014


Há sonhos que se adiam para não se realizarem adiantados.

Este fim-de-semana frequentei este workshop, ministrado pela dança terapeuta Jeanette MacDonald, pioneira deste método na Europa. Agradeço, desde já, à Psinove ter-nos proporcionado a oportunidade de aceder à experiência, ao conhecimento e à generosidade desta profissional, bem como às vivências que pudemos experimentar na primeira pessoa durante estes dois dias. 

Que a dança é terapêutica e pode constituir uma ferramenta no caminho da cura já todos vocês sabem que é uma das premissas CurAção, porque já o mencionei e testemunhei várias vezes. Que o movimento constitui um mediador importante em contextos educativos, clínicos, comunitários, etc. e um facilitador de processos de aprendizagem, desenvolvimento pessoal e cura num sentido mais abrangente, também já constituía uma verdade para mim, não só porque já consta na literatura, porque o estudei ou o comprovei no terreno mas porque o vivencio todos os dias, comigo e com os grupos com que trabalho. 

Mas preciso de sistematizar e arrumar muitas das coisas que fui recolhendo e aprender muitas mais para poder um dia utilizar a dança como ferramenta psicoterapêutica, nomeadamente realizar o mestrado em Dança Movimento Terapia.

Também é verdade que uma das minhas bandeiras é a da Psicossomática, porque todos somos psicossomáticos. Qual não foi a minha surpresa quando a Jeanette começa a formação com a seguinte premissa:

We are not only psychosomatic but also somatopsychic. 
It's a circular process.*

Soma e psique acontecem em simultâneo, não há como dissociar as duas dimensões. 

BODY DOESN'T FORGET.*

Com a dança terapia pretende-se aumentar o repertório de movimento (que constitui um reflexo de um "movimento" interior), potenciando assim a mudança para novos padrões (motion + emotion), envolvendo todos os sentidos no processo. 

There's dance in everyBODY.*

Dancing is only walking with attitude.*

Foi um fim-de-semana intenso, essencialmente vivencial, onde foram tocados processos individuais, relacionais e de grupo, para que pudéssemos sentir a essência desta abordagem. 

A Jeanette tem 40 anos de experiência, humildade, amor e um respeito enorme pelo próximo. Uma inspiração. 

E agora com o bichinho completamente acordado, espero que o mestrado chegue a Portugal ou vou até Barcelona fazê-lo, mas... 6000 eur é muita ginástica para os meus baby steps (só renasci há um ano!). Andando com atitude e o resto... virá!

Há sonhos que se precipitam para não chegarem atrasados.

*conteúdos da formação


(foto Psinove)



(foto Psinove)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014


Não sei qual destes dois intervenientes gosto mais, mas deixo aqui duas inspirações, uma pelo trabalho e outra pela naturalidade. Este é um vídeo de um ensaio nos estúdios da companhia de dança caboverdiana Raiz di Polon, na Praia, que fiz quando lá estive há dois meses. Quanto a mim, por cá, foi-se a constipação e voltei às aulas de dança.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Maria Clara Callil, brasileira, 24 anos, é diagnosticada em Agosto 2012 com linfoma não-hodkin, seguindo-se seis meses de quimioterapia com internamentos sucessivos. Partilhou toda a experiência no seu blog, inclusive a recuperação, a qual decidiu viver a viajar, com o seu marido, durante um ano. Expondo o seu processo, chegaram-lhe várias reacções, desde pessoas que se inspiraram e que retiraram o melhor da sua experiência a outras que a julgaram e atacaram com juízos de valor. Hoje ela decide continuar, mantendo a sua vida na esfera privada.
“Quanta futilidade. Acompanhava seu blog durante seu tratamento, pois na época meu filho também estava em tratamento. Ele não teve tanta sorte quanto você. Hoje tenho certeza que está no céu, levando a alegria para todos. Penso que você deveria dedicar sua vida a coisas mais úteis, agradecer a Deus e a seu dinheiro por estar viva e nunca se esquecer que a coisa mais comum numa pessoa que já teve câncer é a recidiva. Portanto bola prá frente, mas pés no chão, afinal a vida é curta e sempre dá para ajudar os outros de forma positiva e dentro da realidade brasileira, ou seja sem muita frescura. Boa sorte.” (uma leitora do seu blog)

Abrir-nos ao mundo é escolher receber o que vier, o bom e o mau. No meu caminho, com todas as opções que fiz, não tem sido fácil manter-me focada e alinhada, com tanta gente que supostamente quer o melhor para mim a tentar desviar-me para aquilo que seria ou é eventualmente o seu caminho, de medo e “juízo” (que não significa necessariamente consciência), porque afinal de contas tenho uma doença “grave”, “sem cura”, “crónica” e que me deixa mais "vulnerável"… Pois, mas estes preconceitos estão na cabeça e no inconsciente de todos nós e determinam a nossa realidade. Eu escolhi ser saudável e não aceitar o estigma da doença depois da doença porque, afinal de contas, já não me sinto doente e as contas são minhas, não dos outros. Não quero mais sofrimento, mais dor, não mereço, nem tenho de voltar a passar pelo mesmo só porque já lá estive. Se decidir isso e escolher viver isto é mal entendido pelo mundo dos incapazes da felicidade, é problema dessas pessoas, e essas frustrações – atiradas para cima de nós – devem ser devolvidas ao seu lugar: a senhora está a dizer que não consegue ser feliz e não aguenta ver ninguém feliz se o seu mundo acabou com a morte do seu filho. Como podes andar a viajar e a celebrar o amor e a vida quando devias estar a viver no medo e na sombra da doença ou até mesmo ter o mesmo destino que o seu filho? Como ser feliz depois de ter tido um cancro – ou até durante o mesmo, quando anda meio mundo infeliz? Espero que essa senhora consiga recuperar a alegria de viver e aceite o caminho do seu filho, como dele, pessoal e intransmissível. E espero que nós consigamos manter-nos íntegras e saudáveis, devolvendo à origem todas as energias negativas que nos enviam, resultado de medos, invejas, rancores e inconsciência. Mas temos de aceitar que isso faz parte da vida e de nós. A exposição não nos traz só o amor e o carinho, mas tudo o que por aí anda. A “boa vida” faz comichão a muita gente que não se permite ter uma vida boa.

Sobre essa ideia de fazer "coisas úteis" ou "dedicar a vida a coisas úteis"... De que utilidade estamos a falar? Não é essa utilidade a verdadeira futilidade? Faço porque é "útil" e não porque o sinto verdadeiramente... E se aquilo que preciso de sentir verdadeiramente é a sensação da areia nas mãos ou a água do mar no corpo, a essência da matéria? Que utilidade isso tem? Posso dizer que a nossa cura é a coisa menos fútil e superficial deste mundo e ai de quem diga que não, mas só quem ousa fazer uma viagem para dentro sabe do que falo! E o dinheiro, se for utilizado em nosso benefício, é sinónimo de futilidade? Não é essa a sua utilidade? Em que parte desta história inventaram que a vida deve ser vivida em prol dos outros e em que parte da história nos habituámos a ser os outros da nossa própria vida? Amor pelos outros sem amor próprio é amor de mentira! É desespero, à espera de retorno...

Essa história da utilidade é uma tanga. Se a vida deixar de fazer sentido sem emprego, sem saúde, sem marido e filhos e sem dinheiro, ou seja, se não for uma cidadã produtiva e rentável, literalmente contribuinte, e não cumprir com o que se espera de uma pessoa bem sucedida, dou já um tiro na cabeça, uma vez que nem o cancro foi lá muito eficiente nesse sentido…  Não será útil ser feliz? Ou será (f)útil ser feliz? Sim, queremos sentir-nos úteis mas a utilidade não há-de ser um fim por si só porque ser útil por si só, para mim, é inteiramente fútil.

P.S. Ainda assim, ainda aspiro a alguma utilidade nestas palavras… e afins... nem teria este blog senão fosse útil, mas não vamos discutir o que a sociedade considera útil e/ou fútil...



sábado, 7 de dezembro de 2013


E como este blog não responde a tempos e espaços cronologicamente determinados, hoje destaco a battle de hip hop all styles, onde fui jurí, no dia 23 de Novembro, no Kebra Cabana, na cidade da Praia. Este vídeo do Nuno Miranda, que conseguiu captar-nos subtilmente, resume o espírito do evento. E que difícil foi decidir o vencedor, quando os finalistas são de qualidade indiscutível, conferida em diversos critérios. Vale a inspiração no minuto que têm para o freestyle. Improviso, musicalidade, performance... e a magia acontece... Ganhou o Benilson (Beny), que se debateu brilhantemente com o Marcos "Rogo" Semedo. Dois talentos. Inspiração para o meu regresso à dança. (DNNhos...)


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Este ano celebrámos o meu aniversário e o da minha mãe de forma especial, com toda a alegria de quem festeja a vida e ainda nos termos uns aos outros, ainda que ou sobretudo pelas paredes que se desmoronam. Hoje é o dia do pai. Não há a festa em reunião familiar, porque estou longe, mas celebro a sua curAção também, que também faz parte da minha. 61 anos! Parabéns! E o caminho continua...


domingo, 24 de novembro de 2013

Esta secção é inspirada no projecto, mas em particular no livro Cancro com Humor da associação homónima. Vou utilizar alguns excertos dos textos da Marine Antunes como ponto de partida, porque entendo o seu "humor" como mediador criativo e re-criador da sua história e por isso, também, curAção.

Dos (muitos) Planos

Os quatro continuavam a olhar para mim. Percebi que o meu internamento era coisa séria mas não dei grande importância ao caso. A minha mãe, guerreira e lutadora, nunca iria permitir que algo me acontecesse e o meu pai, humano tão bondoso e generoso, sofreria por nós dois. As minhas irmãs, despachadas e divertidas, tratariam de transformar a minha doença numa grande festa e eu, feliz e com mau feitio, não admitiria que me matassem antes de publicar o meu primeiro livro. Estava, portanto, tudo organizado.

A importância de ter tudo organizado. Ter um plano, mesmo que não seja a um nível completamente consciente, condiciona a evolução dos nossos acontecimentos, de tal forma que pode abrir ou fechar possibilidades de acordo com a organização desse mesmo plano. Podemos falar de vários níveis de planos, do micro ao macro, do particular ao universal, e podemos até assumir – de acordo com as crenças de cada um - que já existe um plano para nós à partida e que isso não é incompatível com o facto de sermos condutores do nosso próprio destino nas escolhas que fazemos todos os dias – muito pelo contrário.

Seja um plano espiritual, de alma, um plano profissional, um plano familiar, um plano de vida ou apenas um conjunto de objectivos que queremos concretizar, se nos responsabilizarmos sempre pelos nossos planos, é mais fácil assumir o comando e conduzir-nos para onde efectivamente queremos ir, pelo menos em linhas gerais se não temos as particulares.

Mas é importante dar protagonismo ao plano e não aos eventos que se atravessam pelo caminho e que nos podem desviar do mesmo – não farão esses eventos parte do grande plano? Aceitar os eventos como parte do plano, que escolhemos consciente ou inconscientemente, e não como rasteiras que nos vêm condenar e estragar os planos, permite-nos ser livres na forma como vivemos esses mesmos eventos e traçamos novos planos. Um evento-destruidor de planos aprisiona-nos e não nos permite continuar o caminho. Um evento-planeado, mesmo que não o tenhamos encomendado – quem é que pede um cancro, a morte ou a dor no sapatinho? – é um evento integrado no plano maior (mais amplo) da vida dos seus protagonistas. E, se faz parte, está tudo certo. Sim, o papel principal é me-e-eu-e-eu-e-eu-eu e não o que me acontece. Por isso, integrAção. Plano integrado no plano. Não são as minhas células dissidentes e aparentemente descontroladas portadoras de uma informação extremamente valiosa para mim, ou sobre mim e o meu plano? “Estava, portanto, tudo organizado.”

P.S. Se o teu plano te prende e não te liberta, é um plano de m….! (É a minha opinião. Vale o que vale.)

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Post inspirado na peça "Feio" da companhia Palco 13, em exibição até ao final do mês de Novembro, no Auditório F. Lopes Graça/Parque Palmela, em Cascais. 

Hoje é dia de ir ao teatro em Cascais. E é o meu último post alusivo ao "Feio". Quatro actores não-feios, parodiando a beldade e a fealdade inerente ao facto de sermos de carne e osso e apreendermos o mundo também com os olhos, que transmitem uma determinada informação ao cérebro. E o cérebro precisa de ser desafiado, porque, sem contradição, não nos posicionamos. Sim, precisamos de coerência e estabilidade para adquirir competências e funcionar de uma forma adaptada, mas também precisamos de forças opostas que nos permitam estar em permanente transformação e evolução. E assim que me sento e começo a assistir à peça, ocorre-me logo "espera lá, mas este é que é O feio? Um feio que não é feio?" Pronto, não só sou obrigada a desconstruir a minha ideia de Feio, como sou obrigada a exercitar o cérebro para imaginar que estava à frente de uma pessoa muito feia.

Entretanto, o branco aparece como fundo reforçando ainda mais a ideia contraditória de uma sociedade com os valores pervertidos. O meu cérebro viajou, teletransportou-se para vários cenários sugeridos pela candura representada naquele espaço - sonho, céu, hospital psiquiátrico? Mas não seria afinal o inferno? E o exercício cerebral continuou ao ser levada a imaginar objectos e adereços que não estavam no espaço real, mas que fazem parte da história. Não sei se o teatro e as obras de arte devem conduzir-nos a grandes dissertações ou se devem apenas ser vivenciados, mas na medida em que o cérebro é estimulado e levado a realizar novas sinapses, essa ginástica mental que nos leva a des-construir, quando a vida real nos obriga a estar em permanente construção, já nos permite, ao mesmo tempo, pensar e des-pensar, sem ser necessário estar muito consciente do processo. 

Aquele desconforto criado pela oposição que nos obriga a rever o que temos estereotipado, desde o mais subtil ao mais óbvio, do mais consciente ao mais inconsciente, desarruma-nos um bocadinho a casa, ainda que estejamos perante um cenário de linhas limpas e direitas, minimalista, para que nada nos distraia do que ali se passa e, sobretudo, para que nos apercebamos do que se passa e não se vê. Clean. (Ou dirty?) Afinal de contas, neste mundo em que vivemos, o sub-texto tem todos os dias vida própria, muito mais do que os bla bla bla's que muitas vezes não passam de isso mesmo, bla's, whiskas saquetas.

Parabéns aos feios, que afinal são bonitos! Quatro actores, quatro elogios, embora os elogios sejam estendidos a todos os implicados. E... não fiquem em casa!

Alfredo Matos Fotografia

domingo, 17 de novembro de 2013


Hoje carpo. Não só por ter sabido de mais uma morte, desta feita de uma menina cabo-verdiana de 16 anos, que eu pus a dançar funaná na enfermaria do piso de hematologia do IPO e que saía da sua cama e do seu quarto para se ir sentar ao lado da minha cama até as enfermeiras a expulsarem de lá, não fosse ela tentar fugir novamente do prédio. Tratavam-na como uma criança, mas duvido que algum dia o tenha deixado de ser. E ali no meio dos velhos, era. Ainda não me acredito muito nisto, porque parece que ainda a estou a ver a enrolar o lenço na cabeça, fazendo jus à sua origem, e a inspirar-me para fazer o mesmo e lançar a moda.

Hoje carpo. Se calhar é mais fácil enganar a vida do que a morte, embora eu acredite que podemos enganar a morte se agarrarmos a vida. Carpe diem. Todos os dias. E prometo dançar um funaná com toda a alegria que se lhe impõe. E prometo ser feliz na tua terra. E prometo fazer tudo o que tem de ser. Carpo diem. Carpo vitam.

Relembrando "As Centenárias", peça a que fui assistir na última 4ª feira e que terminou hoje, no Teatro Meridional, em Lisboa... Com a brilhante interpretação das 3 actrizes em palco, homenagearam as carpideiras que tanto vivem perto da morte por não a querer ver de perto, em modo de manter o inimigo sob vigilância, conhecer-lhe os truques todos para poder passar-lhe uma rasteira sempre que este se apresentar. Acho que nunca vi a morte de frente. Passou-me ao lado. Mas não há morte que não nos remeta para a vida. Por isso, sim, vamos carpir e lamentar o que tem de ser carpido e lamentado, para depois continuar a carpir mas cada dia, um depois do outro, e em bom. Carpo mais o dia do que a noite. Pelo menos pretendo.

Obrigada Flávia (Gusmão) pelo MoMo - outra peça muito especial - e pela tua carpideira brilhante. Cá te espero na também tua terra, para um funaná sem manha...



Carpir. Do latim carpo, carpere.
http://www.os-sinonimos.com/sinonimo-de-carpir

quinta-feira, 14 de novembro de 2013


Post inspirado na peça "Feio" da companhia Palco 13, em exibição até ao final do mês de Novembro, no Auditório F. Lopes Graça/Parque Palmela, em Cascais. 

Hoje não estou muito para elogios... muito menos a feios! E assim se começa a dissertar sobre o que o feio ou o bonito acrescenta a uma vida... 

...acrescenta reacções, comentários, críticas, elogios, abre caminhos, fecha portas? Bonitos desta vida, como teria sido a vossa vida se tivessem nascido feios? Mas vamos ainda mais longe. Como teria sido a vossa vida se a vossa cara fosse outra? A nossa cara traz muita informação sobre nós, os nossos genes, a nossa família, antepassados, de onde vimos... Mas, até que ponto pode determinar para onde vamos? Como reagem os outros a toda essa informação alojada nos nossos traços, alargada à nossa linguagem corporal? E se de repente mudamos de cara, corpo e "comportamento corporal"? 

Não há como dissociar identidade de corpo, até porque o nosso cartão de visita, de identidade ou do cidadão, tem de ter a nossa cara chapada. Esta sou eu, mais ninguém!

Claro que não pretendo cair no determinismo da coisa - se é loira, é burra, olhos verdes são traição e azuis ciúme, como nas canções - até porque, por detrás do olho está toda uma intenção que espelha a alma e essa tem muito mais cores do que aquela que aparece. Mas a verdade é que eu sou esta, vim com esta embalagem e não sou a outra. Este ano perdi o cabelo. Tive a sorte de ter sofrido uma mudança relativamente aceitável no que toca à identidade: não nasci com ele por isso continuo a ser sempre eu! Mas podem crer que às vezes sinto traços de personalidade distintos em mim, que estão relacionados com o meu estereótipo de mulheres de cabelo curto que sem querer incorporei. Inconscientemente ou não, associando o cabelo curto se calhar a uma energia mais masculina, sinto-me mais determinada. Não posso atirar os cabelos para o alto e esperar que caiam sensualmente ou enrolar graciosamente uma madeixa de cabelo. Nem dançar com o cabelo, caraças! É isto e pronto. Sem rodeios. Googlando sobre personalidade e estilos de cabelo:

“Geralmente quem corta o cabelo curto deseja ser menos sensível e sofrer menos interferências na vida." O cabelo comprido está associado a "pessoas mais sensíveis e bem mais flexíveis." E podia continuar a citar o que se diz por aí, mas o interessante é perceber que existem estereótipos e expectativas agidos a um nível inconsciente que nos levam a ter um determinado comportamento quando temos determinados traços ou perante alguém que tenha uma fisionomia específica. 

Mais do que apelar à anulação destes fenómenos - o que importa é a beleza interior porque, afinal de contas, o intestino é bem mais importante na nossa sobrevivência do que o feitio das orelhas - o mais interessante e relevante é tomar consciência de que isto acontece e faz parte, para depois perceber o quão injustos estamos a ser se não equacionamos todas as variáveis. A linguagem corporal não traz legendas, mas estão lá, subentendidas. Subentenda-se portanto.

Fotografia das costas dos Feios, para não ferir susceptibilidades (Alfredo Matos Fotografia)

Elogio ao FEIO #2
Elogio ao FEIO #1

sábado, 9 de novembro de 2013

Juca Furtado, 24 anos, cabo-verdiano, diagnosticado com leucemia aguda há um ano... até hoje...

Dizia eu que a morte é a vida ao contrário... e falava contigo há 6 dias atrás sem sonhar que hoje virarias a mesa... Hoje percebi que crença e fé são conceitos diferentes. Os dois movem montanhas e falam de acreditar mas podem conduzir-nos a desfechos diferentes. Mas hoje a teoria pouco interessa. Nem sei se devia ter dito o que te disse. Nem sei bem como abordar quem passa pelo processo de doença mas não comparte das minhas convicções ou desejos. Nem sei se cura é o mesmo para todos. Nem sei se todos querem de facto o mesmo. Não te conhecia mas fiz por te conhecer um bocadinho mas pouco. Ou o suficiente. Partiste para o outro lado que espero que para ti seja igual a amor, saúde e crescimento. Aqui ou aí desejo-te o mesmo. E desejo-te o mesmo que desejo para mim, aqui ou um dia aí. Ajudaste-me a ter ainda mais certeza neste caminho apesar de tudo o que me escapa. Ainda assim as palavras hoje servem de pouco. E porque escolher viver é escolher também um dia morrer, espero continuar a viver com humildade, respeito pelo próximo e esperança. Devo manter-me no meu cantinho? Devo assumir um papel activo nesta área? Como fazê-lo sem interferir na liberdade dos outros? Continuo a dizer que a melhor forma de o fazer ou a única ao meu alcance é dar o exemplo, o testemunho e informar, dentro das minhas possibilidades. Registei a última coisa que me disseste por escrito sem saber que aquela frase era mesmo a última coisa que ouviria de ti. "Sei que vou conseguir se cumprir a minha parte." A tua parte continua por aí. Será que estou a cumprir a minha por aqui?

sexta-feira, 8 de novembro de 2013


Post inspirado na peça "Feio" da companhia Palco 13, em exibição até ao final do mês de Novembro, no Auditório F. Lopes Graça/Parque Palmela, em Cascais. 


O que diz a minha forma sobre o meu conteúdo? O que diz o espelho sobre quem eu sou? Há dias em que acho que o espelho diz o que parece que sou. Ou será apenas o que aparece que sou? Porque no espelho vejo um sorriso maroto, olhos que rasgam a alma e rugas desconfiadas, devolve-me o espelho a minha pessoa? É assim que sou... ou estou? E se o meu espelho hoje fores tu, o teu sorriso dúbio, os teus olhos indecifráveis e as tuas rugas em tensão?

Mais do que falar da importância do espelho que temos em casa, quero falar sobre como nos espelhamos uns nos/aos outros e como esse espelho que és tu - e não o da parede ou do retrovisor - tem tão mais importância do que qualquer outro. É esta que eu sou? É este o impacto que eu tenho em ti? É assim que o mundo me vê? É assim que tu - que és o meu mundo resumido neste segundo - me vês?

A mulher do Dieter olhava apenas de soslaio para o seu olho esquerdo. Ele não sabia que era feio, mas sabia que era alguém que suscitava esse tipo de reacção. "És muito feeeio!" traduziu ela, transformando o sonho em pesadelo. Pois, se ele não ficou a saber se era efectivamente feio - opiniões são discutíveis - passou a sentir-se feio, o que é bastante pior! Sentir-se feio é pior do que ser feio!!! E depender do espelho - de casa ou do lado - é abdicar da exclusividade na condução da própria vida. É o mesmo que dizer: "ok, dou-te as chaves da minha casa e faz com ela o que quiseres, desde que me deixes continuar a viver lá."

E assim o Dieter entregou a sua casa/cara mas continuou a viver lá. Casa remodelada, festas à grande, fachada imponente, imparável. Apenas deixou de ser a sua. Para onde teriam ido as suas coisas, os seus biblots, aqueles que tinham a sua cara, aquela que deixou de ser pessoal e intransmissível?

Impessoal é tudo o que nos impede de ser pessoa. Ninguém sobrevive a ser im-pessoa. E quanto mais a minha pessoa residir na tua ou em qualquer outra, mais perdida de mim mesma vou estar. Mas também é preciso que te digam que aquilo que vês em mim tem mais a ver contigo do que comigo. E se me vês a sorrir, é porque sou incapaz de te mentir.




O que diz a minha forma sobre o teu conteúdo?







terça-feira, 5 de novembro de 2013


Post inspirado na peça "Feio" da companhia Palco 13, em exibição até ao final do mês de Novembro, no Auditório F. Lopes Graça/Parque Palmela, em Cascais. 

Por que é importante sermos bonitos? Parafraseando a minha amiga Jô, quem é que inventou que tinha de ser assim? Temos de ser assim, temos de fazer assado, temos de corresponder às expectativas, temos de ter a casa sempre arrumada, temos de estar sempre a produzir e a reproduzir e ainda a pós-produzir porque a coisa ainda não está certa. Quem é que inventou que tinha de ser assim, que a vida era isto e que o texto era este? 

É importante sermos bonitos, por dentro e por fora - e arredores! E agora a coisa ainda se torna pior porque, como a beleza vende de uma forma doida (e varrida), e anda meio mundo mal cotado no mercado porque não dá para todos, anda uma (menos) bela parte da população a reivindicar a importância da beleza interior. O que interessa é a beleza interior! Ora bolas, continuo a ter de ser bonita! E a trabalheira que isso dá! (até descobrir que a trabalheira na frase "ter de ser bonita" não está no "ser bonita" mas no "ter de"). Quem é que inventou os deveres e os teres de desta história?

Pois, fomos nós, nós todos, o sistema! Eu gosto de gente bonita e de paisagens bonitas e de coisas bonitas. Não gosto de feios, porcos e maus e depois também não gosto de uma data de coisas feias minhas e tuas e nossas. É assim. Gosto de ter tudo no sítio, mas, às muitas vezes, não tenho nada no tal sítio, esse que vem no programa. Conforme a sitiação. Mas quem sou eu para dizer que o menino é feio quando se porta mal? Quem sou eu para dizer que não interessas nem ao menino Jesus, o mais bonito dos bonitos? Quem és tu, Pai do Natal, para só presenteares os meninos bonitos, os que se portam bem? Quem escreveu o manual do bonito comportamento? Quem desenhou as caras bonitas e os corpos perfeitos?

Eu gosto de ser bonita, não gosto de ser feia. E gosto de coisas bonitas, os olhos também enchem a barriga. Mas hoje quero elogiar a minha parte feia! Sim, sou feia, e tu então ainda és mais feio se não me quiseres feia! (Digo-te já que isso não seria nada bonito!)

Bom, mas só sou bonita e/ou feia porque alguém inventou classificar-nos assim e que essa classificação teria repercussões em tudo o resto. A verdade é que é assim! Se alguém vier agora reinventar isto e decidir que o importante é SER e que nesta matéria devemos abster-nos de julgamentos, o que será que acontece?

Constituirá o sentido estético uma programação biológica do criador? Se calhar, é isso. O mais bonito é o que sobrevive, nem que isso resulte em dias em que tem de se fazer cara feia aos adversários. Pois é, também não sobrevive quem for bonito todos os dias!

Se apreendemos o mundo pelos sentidos, queremos o bonito. É legítimo. O feio incomoda. Perturba os ouvidos, fere as mãos e cega os olhos (se bem que não sei o que é que cega mais os olhos, se o feio se o bonito). Mas sem incómodos não mudamos de lugar e não chegamos a mais lado nenhum, senão este, o do concurso de beleza - world peace, :) e Y. Por outro lado, somos o todo e não as partes, mas também as partes. 

Por que é importante sermos bonitos? Comecemos pelo nariz, a parte mais saliente da cara...

Posto isto, não vou dizer se a peça é bonita ou feia. Vão ver!





terça-feira, 29 de outubro de 2013



Ex-modelo e jornalista, Flávia Flores, brasileira, inspira muitas mulheres para que sejam capazes de se reinventar durante o processo de quimioterapia, com um blog e uma fanpage nas redes sociais e agora com um livro. As cats são as gatxinhas que passam pelo tratamento e o look da quimio é a forma como algumas delas escolhem apresentar-se, cada uma com o seu estilo. Vídeos de como colocar os lenços, dicas de maquilhagem, auto-estima acima de tudo, para que não se descure, mas ao contrário se cure com todas as ferramentas disponíveis. Não há por que viver todos os dias com a cara "de lagartixa" imposta pela doença e pelos tratamentos.

Ainda mais importante do que isto, quero salientar que tudo o que retiramos de positivo de uma situação difícil deve ser levado para cada bocadinho de dia, cada oportunidade de vida e cada desafio que se apresente e aqui acho que não é necessário ter um cancro da mama como a Flávia para que qualquer pessoa cuide de si nem um linfoma como eu para que desperte o seu lado criativo. Estamos cá para que quem lê não tenha de passar por estas coisas, mas que ainda assim cuide de si e das suas coisas com todo o amor.

 


quarta-feira, 16 de outubro de 2013


Partindo da minha linha de pensamento e das pesquisas que tenho vindo a fazer na área, falo hoje da doença como símbolo, baseado no livro "A Doença como Caminho" de Thorwald Dethlefsen (psicólogo) e Rüdiger Dahlke (médico e psicoterapeuta). E começo por dizer que, como doença, refiro-me ao conjunto de sintomas que é tomado como tal, mais do que propriamente ao nome que se lhe dá. E mais, refiro-me apenas à forma como esses sintomas são percepcionados mais do que à forma que assumem por si só. Por exemplo, a minha mãe hoje tem uma dor num braço que a deixa aflita e condicionada. Interessa-me mais a sua aflição e a forma como descreve o que sente ("parecem mordidelas de cão") do que o diagnóstico em si, porque acredito que aí reside a chave do seu cofre. Mas voltemos atrás.

"A nossa linguagem é psicossomática. (...) O doente ao falar dos seus sintomas corporais costuma descrever um problema psíquico." Para os autores, temos de usar o pensamento simbólico, através de analogias, para entender o que se passa a nível mental e que teve manifestação no corpo, não porque uma situação leve à outra, mas porque os dois planos acontecem em simultâneo, o físico e o mental, e um tem sempre representação no outro. Assim como o Variações dizia que o corpo paga "quando a cabeça não tem juízo", aqui a falta de juízo é reprimida ou remetida para uma "zona de sombra", por "repúdio ou resistência": "o corpo tem de viver aquilo que o indivíduo se escusou a assumir conscientemente." Ou seja, o sintoma físico tem a sua correspondência no plano psíquico, mas a um nível inconsciente. Aqui acrescento que a maior parte das vezes sabemos bem o que nos está "a morder" por dentro, mas não o queremos verbalizar, ou seja, assumir. É um gato escondido com o rabo de fora.

"Aquilo que se manifesta no corpo está também na alma: assim na Terra como no Céu." A proposta dos autores não é eliminar os sintomas por si só, mas aceitar as sombras que neles residem. "Se a ampliação da consciência produzir automaticamente uma modificação subjectiva, pois fantástico", o que normalmente acontece.

E o que fica na sombra? Todos os impulsos difíceis de assumir, muitas vezes alvo de julgamento individual e social e que podem dar a origem a comportamentos não adaptados dos pontos de vista individual e colectivo ou a consequências difíceis de aceitar por parte primeiro do próprio e depois dos outros. Os instintos agressivos e sexuais são dos mais relegados para a sombra, mesmo que a sua saída pudesse passar apenas pelo verbo e não exactamente pela acção, nem sempre possível ou desejável. Mas a agressividade pode ser bem mais perigosa na sombra. "Enquanto a agressividade (ou qualquer outro impulso) permanecer na sombra, subtrai-se à consciência e isso é que a torna perigosa." Não há sol sem sombra. E eu sei como a minha mãe estava irritadaaaa no dia em que o braço quase paralisou. Teria sido conveniente ter dado um murro em alguém? Bom, talvez não fosse a saída adequada, mas como ideia, não era má de assumir. Até porque no campo das ideias tudo é possível. Graças a Deus e à inteligência divina que não nos põe limites na fantasia!

Mas então qual é a dificuldade em chegarmos ao cerne da questão? É que estamos sempre mais ocupados a perseguir culpados e em combater do que em dar tréguas e apaziguar a nossa mente. "Aquele que combate ou que persegue jamais atingirá o seu objectivo". Para além disso, como os sintomas das doenças são "avaliados muito negativamente, tanto pelo indivíduo como pela colectividade, (...) não são vividos e vistos de modo consciente."

Qual é a proposta? "Abstrair-se do sintoma e transpô-lo para o plano psíquico. Escutar com atenção as expressões idiomáticas que nos poderão servir de chave."

"É importante que o indivíduo se deixe perturbar pelo transtorno. Um sintoma não faz mais do que corrigir um desequilíbrio: o hiperactivo vê-se forçado a descansar, o irrequieto é forçado à imobilização, o comunicador compulsivo obrigado a silenciar-se. O sintoma activa o pólo rejeitado. Há que (...) abraçar sem hesitações aquilo que nos é imposto. A doença é sempre crise e toda a crise exige evolução. Qualquer tentativa no sentido de recuperar o estado anterior à doença é prova de ingenuidade ou de tolice. A doença pretende conduzir-nos a conhecer novas zonas desconhecidas e ainda não vividas; quando atendemos ao chamamento de modo consciente e voluntário, damos um sentido à crise."

Agora quem é que vai dizer à minha mãe para ficar um dia com o braço quietinho?

A minha proposta é semelhante mas tem algumas diferenças porque eu entendo um sintoma como um veículo de expressão, da seguinte forma e por esta ordem (e é assim que tenho lidado com os sintomas que têm surgido nos últimos meses que, de outra forma, podiam levar-me a ficar apenas centrada e obcecada com a doença):

Situação (Sintoma) Emoção

e que normalmente aparece assim:

(Situação) Sintoma (Emoção)

com o sintoma a aparecer em neón, a piscar.

O sintoma é o mediador e condutor da expressão que não teve lugar. Através do sintoma é-nos permitido finalmente expressar livremente (ainda que em forma física de bloqueio, porque o conflito psíquico ainda está presente), até porque, enquanto doentes, é um direito que nos assiste. Assim que identifico a minha emoção - facilitada pela sensação proporcionada pelo sintoma - e a situação que me incomoda, trato de mudar a minha crença em relação à mesma, aceitando-a como ela é se não estiver ao meu alcance mudá-la ou agir de acordo com o que pretendo, dentro das minhas possibilidades. E um sintoma que perde protagonismo é um bicho que perde força e se retira de cena. (Mas um dia destes volto a este assunto.)

Termino com a frase dos autores: "A DOENÇA TORNA-NOS SINCEROS".

P.S. Para quem conseguiu chegar a este post scriptum, vou voltar a este livro para vos contar da interpretação dos autores especificamente do cancro.

P.S.2 Peço desculpa à minha mãe por utilizá-la como exemplo, quando me podia ter exposto a mim, mas foi o timing da coisa. Hoje é ela.

terça-feira, 8 de outubro de 2013






Não sei se isto acontece com todos os doentes oncológicos, mas li algumas histórias de "colegas", neste trabalho temporário que é o cancro, à procura de sentimentos semelhantes, testemunhos inspiradores e respostas criativas, mas sobretudo finais felizes, como aquele em que somos despedidos desta função de doente oncológico, que numa primeira fase fomos a tempo inteiro, depois a tempo parcial, como avençados, até que mudamos de vez de vida. 

Para vos dizer que o primeiro blog que encontrei na net pertencia a uma mulher que entretanto faleceu e que, por isso, dei de caras com um post do marido que dava essa mesma informação aos leitores, completamente consternado, como podem imaginar. Tudo o que precisava para me motivar! Mas pesquisar na net tem destas coisas! Há de tudo! E as histórias com finais infelizes também me foram imprescindíveis nas minhas decisões.

Com o testemunho da Fernanda Serrano, aprendi algumas coisas que me foram úteis:

- Esta história do conhecimento científico garantir infalibilidade, previsibilidade e resposta única é uma fantasia. Há ciência e cientistas, uma coisa é uma coisa e outra coisa são várias coisas. O que quero dizer é que a medicina não é exata, até porque as pessoas não vêm nos manuais nem são protoculáveis e a medicina também é feita por pessoas como nós, pacientes. Opiniões e pareceres há muitos e diferentes. É legítimo pedir vários pareceres e tomar uma decisão consciente, mas pessoal e intransmissível.

- Não só de consentimentos informados é feita a história de um paciente. O corpo é seu, é só ele que o sente e só ele conhece as suas leis mais do que outra pessoa qualquer, mesmo que esta se apresente como o suprasumo da matéria. Ou seja, em todo o processo, é importante estarmos ligados aos sinais, às sensações e à intuição, o sexto sentido que tem a informação mais valiosa e decisiva, quando nos encontramos numa encruzilhada.

- Não julgar os outros e as suas decisões e comportamentos, porque cada história é diferente da outra e cada doença aparece numa pessoa diferente, que vem de um sítio particular e que tem um caminho único. 

- Há finais felizes. E cá estamos nós para contar a história!

terça-feira, 1 de outubro de 2013


Hoje é dia de celebrações. Este blog faz um mês, o que signifca mais um mês no caminho da cura! E grão a grão, encho o papo! Mas sempre muito bem acompanhada. Como hoje é um dia especial, dedico-o a uma carequinha especial, a Leonor, de 4 anos, que há 3 meses transportava dois tumores gigantes, um em cada rim, mas que hoje já se encontra mais levezinha, porque o seu sorriso e a sua alegria - mais o amor da torcida toda dos aprendizes - levam todos os dias a melhor, todos os dias um bocadinho mais. E o caminho continua... Para mais informações, https://www.facebook.com/pages/Os-Aprendizes-da-Nono/465581613536074?fref=ts.

Este é um vídeo para a Leonor gravado nos bastidores do espetáculo Crio da Academia Arte Move, em Julho:


Julho 2013:



Setembro 2013:


sábado, 28 de setembro de 2013

"Via agora com clareza a verdadeira essência da condição humana no seu estado mais puro: na total e completa solidão. (...) Sozinho com o seu medo, porém, foi tomado por uma certa excitação. O que seria aquilo? Se não era masoquismo, só podia ser coragem." (Guilherme Fiuza no livro "Giane")


Confesso que quando ouvi o Reynaldo Gianecchini a primeira vez em entrevista pintando tudo tão cor-de-rosa, achei tudo muito... cor-de-rosa. Ninguém que está preso por um fiozinho ténue duas vezes, nos cuidados intensivos, pode ser imune à dor, física e psicológica - dor é dor! Mas a verdade é que a imunidade à dor tem outros contornos, a paleta de cores é diversa e o cor-de-rosa faz mesmo parte. A dor existe, mas não se sobrepõe ao amor, à paz de espírito, ao renascimento e à oportunidade que ficam quando a dor se vai embora, esgotada na sua existência, sem novas edições, porque já não há quem a compre. Não me canso de dizer que é uma escolha.

O livro "Giane" não é sobre cancro, é uma biografia de uma pessoa que se cruzou com um mestre chamado cancro, a certa altura da sua vida, e que ganhou mais uma ficha para o carroussel dos felizes.  

Ler, saber, conversar e ouvir testemunhos é reconfortante. Mesmo quando nos deparamos nas pesquisas, ouvimos histórias ou conhecemos "colegas" que entretanto morreram, todas as experiências nos ajudam a situar; no meu caso, as outras histórias reforçaram a minha posição perante a doença: responsabilidade, escolhas e ação. 

Entretanto, estava eu a ler o livro do Gianecchini e a ocorrer-me nas entrelinhas as tantas 
coisas que lhe podia dizer... Era bom poder trocar com ele os cromos desta caderneta da vida, mas seria uma no meio da multidão, pensava eu. Estava quase no fim do livro, quando decido voltar ao início. Abro a capa e voilá... um abraço do Giane!



 Livro autografado por Guilherme Fiuza, o autor, e Reynaldo Gianecchini e dedicado ao Jefferson


Qual a probabilidade de irem à Fnac - neste caso a minha querida prima - comprar um livro e trazerem um que foi "abraçado" pelos autores, autografado, para vir parar às minhas mãos, estando eu a passar por um processo semelhante? Afinal não sou mais uma no meio da multidão. 

Um abraço do Giane! Não é preciso mais. Já lhe disse tudo o que tinha para lhe dizer e ele já me disse tudo o que tinha para dizer.


E, sim, é verdade que dar um pontapé no medo pode ser muito excitante. "Estava pronto para a travessia - para qualquer uma."

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Enquanto estava aqui num dilema ético sobre expor ou não o poema que se segue, descobri que a autora já tem vários publicados e faz todo o sentido neste contexto.

Durante o período de hibernamento, cruzei-me algumas vezes com a Z. (Dona Z., pela idade de avó, mas eu tenho alguns problemas com a utilização de pronomes de tratamento... gosto de nomes...) e recordo com carinho a sua primeira vez como doente naquela enfermaria. Como gosta de falar! Às vezes eu até tinha de pôr os olhos na tv ou no livro para descansar um bocadinho. Não era má vontade, mas tinha de poupar energias e manter reservas consideráveis para fazer frente a um inverno tão rigoroso (e não falo da chuva). Mas não gostava só de falar. Gostava sobretudo de escrever.

Se há dúvidas do poder de transformação do trabalho criativo, publico aqui um dos poemas que partilhou comigo Nasatimiso (pseud.), porque sei que a Z. é assim generosa e os foi distribuindo por médicos, visitantes, doentes e restante pessoal. E assim se transformam verdadeiros dilemas!

Fazer um poema!

É transcrever num papel
O que nos vem ao pensamento
Ou o que se está a sentir
Naquele próprio momento!
Mas...
Com palavras adequadas
De carinho e ternura
Fazem-se frases moldadas
Enchendo-as de beleza pura!
E assim...
Se vai transformando
Uma mensagem em poema
Dando carinho e amenizando
Um ou outro dilema!

Nasatimiso
7/7/00

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