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quarta-feira, 1 de novembro de 2017



no caminho da descoberta dos meus... sentidos


No que diz respeito ao ser humano, se formos selecionar o seu movimento mais elementar, teremos de eleger a respiração. Mesmo quando estamos parados, o nosso corpo continua em movimento. Seja pela corrente sanguínea, pelo bombear do coração, passando pelos movimentos viscerais e o processo digestivo e terminando nos pensamentos, parar é efetivamente morrer. O problema começa quando não reconhecemos e validamos esse movimento que continuamos a fazer mesmo em descanso. Qual é o resultado disso? Viver na angústia permanente de uma sociedade que exige que sejamos ativos, produtivos, fazedores de tudo e de nada, sem direito a pausas. Parar de correr, de produzir, de trabalhar, de fazer coisas, não é morrer. A verdade é que o descanso continua a ser movimento, talvez o mais importante na reformulação do caminho. Porque as pausas continuam a gerar pensamentos, digestão, contração e expansão e... respirAção. 

Como professora do método Pilates, reparo que o maior problema da respiração reside na inspiração. Inspiramos muito mal e sopramos muito bem. Há pessoas cuja inspiração é quase inexistente. E como absorvemos coisas boas se não (nos) inspiramos? E se o segredo para muitos dos nossos males estiver na inspiração, física ou simbólica, mas muito física e real? Como aguentar expirando-nos constantemente?

Quando reflito na razão do nosso corpo para cortar a inspiração, penso em proteção. Há tantas coisas que "não nos cheiram", que é mais seguro bloquear a respiração e o olfacto, uma coisa, a outra ou as duas. É então preciso reaprender a respirar e a cheirar, num ambiente seguro, que dê lugar a coisas boas. Este é um assunto que invariavelmente me toca porque a sinusite e as alergias me acompanham desde que nasci, numas fases mais ativas do que noutras (Agosto e Setembro foram terríveis, Outubro foi calminho). O que será que às vezes "não me cheira"? Será que valido essa intuição? Será que bloqueio a porta de entrada do olfato? Do que será que a produção desenfreada de muco me procura proteger? Quais são os perigos? O que é demasiado e o que é insuficiente? Seja por insuficiência seja por hipersensibilidade, a respiração fica comprometida. E eu duvido que as outras funções vitais não fiquem também quando a respiração é deficiente. Um dia dedico-me a explorar os padrões respiratórios ligados a diversos tipos de pessoas, personalidades e patologias. Continuo a observar porque, apesar do astigmatismo, não me privo de ver - pelo menos, o que me interessa!😂😂


Sessão relaxamento nas Gaivotas da Torre, em Cascais, com a Arte Move e o projeto We Move


sábado, 17 de junho de 2017



Já disse aqui algumas vezes que a felicidade mora nos sentidos, porque é através deles que apreendemos a vida e porque é através do sentir e da sensibilidade que nos relacionamos com o outro e com o mundo. Mas que importância tem a utilização plena nos sentidos quando nos venderam a existência de uma inteligência que privilegia o pensamento lógico e a acumulação de conhecimento?

Quando penso em privação, reconheço que seja, tantas vezes, o que nos faz valorizar o privilégio que é, mais do que viver, interagir com a própria vida. 

Quando penso em sentidos, apesar de considerar a visão e a audição bens maiores, grandes canais de conhecimento e experimentação, tendo a escolher o tacto como o meu preferido. Não sei se terá sido por ter passado o primeiro mês de vida dentro de uma incubadora, numa altura em que não se dava importância ao toque nos bebés, o calor humano é das coisas que valorizo mais. Paradoxalmente, tenho dificuldades em dormir acompanhada, mas isso seria todo um outro tema sobre como os nossos conflitos de aproximação/separação podem condicionar a mais básica das necessidades, todo um outro artigo sobre experiências seguras e inseguras que vão pautando a nossa forma de nos relacionarmos e de sentir com e sem o outro. 

Voltando ao tacto, sempre ouvi que os espanhóis é que tocavam sempre nas coisas para as ver, nomeadamente nas lojas. Claramente os povos latinos tendem a estar mais à vontade com o toque e não me parece estranho que utilizemos vários sentidos em simultâneo para avaliar e conhecer, de uma forma mais completa, o ambiente que nos rodeia. Quantas vezes não chega olhar, ver? Quantas vezes não temos de pegar, tocar, cheirar? 

A visão e a audição são tão valorizadas que consideramos como maiores deficiências sensoriais a visual e a auditiva. Sempre trabalhei com espelhos, dando aulas de dança e trabalhando com grupos e quase sempre com música. Trabalhando com o corpo, o contacto e o toque também sempre foram desenvolvidos e estiveram presentes. Quanto ao olfato e ao paladar, estão intimamente ligados, porque, quando comemos, sentimos o aroma de um alimento e, sem "cheiro", não sentimos sabor nenhum! E estão intimamente ligados a memórias e histórias! 

Todos os sentidos nos remetem para memórias, para vivências, para afetos, mas eu arrisco dizer que os cheiros e os sabores são clássicos no que diz respeito a isto mesmo. Associamos um odor e um sabor a um lugar, a uma avó, uma pessoa querida, uma casa, a uma experiência, um momento. 

Costumo dizer que, desde que estive doente (e também porque criei o blog), tiro mais fotografias e escrevo mais para reter informação, auxiliar a memória, mas talvez sinta que, ao viver mais plena de "sentidos" (fisiológicos e simbólicos), a mente me possa atraiçoar e me vá esquecer de tudo o que tenho a oportunidade de estar a viver. Só porque, no fundo, fui programada para reter a informação pela mente, pela memória consciente, pelo B-A-BA, pela linguagem, pelo ipsis verbis que éramos obrigados a repetir na escola. A, ante, após, até, com, contra, conforme, consoante, de, desde, em, entre, para, per, perante, por, segundo, sem, sob, sobre, trás. 

No entanto, lembro-me do cheiro de um leite horrível que, por vezes, nos davam ao lanche, na primária. E lembro-me do sabor dos coentros das saladas da minha avó, que me acompanha em todas as saladas que adoro. 

Estas são memórias que as minhas células assumiram como realidade. As da mente são, tantas vezes, um esforço para não nos aproximarmos tanto do tanto que é de verdade. 

Digo eu. Mas sobre tudo o que está neste blog: digo eu...

Voltando ao início, afinal de contas, que diferença fará nas nossas vidas sentir e experienciar a vida com o corpo todo, sem nos desmembrarmos de sentidos e de sentido?




Possivéis temas a explorar a partir deste post:
- Os sentidos e a noção de tempo: passado, presente e futuro;
- "Não me cheira..." o olfacto, o perigo e as doenças respiratórias - as minhas alergias e sinusites frequentes;
- A abertura do olfacto e do paladar: a minha experiência com óleos essenciais como facilitadores desse caminho;
- Os sentidos e o sentido da vida;
-  A (hiper)sensibilidade ou uma sociedade que não facilita o sentir?
- Sentir, vulnerabilidade e exposição ao perigo 






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