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sexta-feira, 14 de novembro de 2014


Dizer adeus é entregar a Deus. E entregar não é fácil. Não poder controlar o que é nosso, perceber que nada é na verdade nosso, aceitar perder o que é nosso para sempre.  
A vida não é para sempre, mas é sempre que o homem quiser. Mas o homem às vezes não quer mais. Nunca mais.  
Não me abandones. Fica mais um dia e começamos de novo, tudo de novo. Como se não houvesse amanhã. Só não me deixes acordar e perceber que não há....  

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Partilho com vocês as minhas fotos do último espectáculo da Arte Move, "Desassossego", o primeiro a dançar depois do cancro e por isso muito especial. É preciso quase um guindaste para me tirar do chão mas a intenção está lá. Ou cá. Ainda não regressei à dança depois do verão porque não me tenho sentido operacional, mas... me aguardem!

Obrigada Instant Bulb e Arte Move pelas fotografias!

(para ilustrar as fotos, seguem-se dois dos textos que escrevi para o espectáculo)

Todos os dias espero este momento, o momento em que me desassossegas e me fazes transgredir a regra de ser apenas eu. Todos os dias espero este momento, que me sossega as dores e o sofrimento. Todos os dias sou movimento, brisa suave ou forte - o vento. 

Hoje era para ser ontem. Os minutos não sabem ser horas e as pessoas esquecem-se de ser gente. Gente daquela que vem sem relógio, sem telefone, sem tv, sem porquê. Gente daquela sem calendário para agendar o amor ou computador para esconder a dor. As pessoas esquecem-se de ser gente que sente, que cai, que salta, que se equilibra, se desequilibra, se levanta, se encolhe, se expressa, se abraça, se separa, corre, pára, anda, entra e sai… Apenas gente no desassossego de ser gente. 

Fotos: Instant Bulb
Montagem: CurAção


domingo, 13 de julho de 2014


Quinta-feira, 10 de Julho de 2014

Desafio
E se ninguém conseguisse mentir?
Desenvolva o tema, usando não mais de 400 palavras.


Era uma vez um menino que gostava de brincar às escondidas. Gostava de desaparecer de vez em quando para que pudessem procurar por ele. Será que o vão apanhar? Será que vão à sua procura? O menino sabia – sem saber – que os livros se vendem fechados para que possam ser abertos. E desfolhados. Ensinaram-lhe que era feio mentir e, pelo que pôde perceber, só aos adultos é permitido mentir. E à descarada. Ele desculpa-os porque sabe que precisam de inventar algumas histórias para não se zangarem uns com os outros ou andarem tristes dentro deles – embora andem na mesma. Ele não precisa de mentir porque inventa histórias de encantar e de grandes heróis para manter viva a sua verdade. São de faz-de-conta, o que é diferente de mentir. Os crescidos deixam de brincar e começam a mentir. Mas ele também tem alguns amiguinhos que às vezes mentem porque têm medo. Ele mentiu uma vez para a mãe não ficar zangada e triste.

Batota. Batoteiros. Não sei por que chamaram um coxo para falar de mentiras mas talvez porque, enquanto houver vida, há de haver mancos, imperfeições e mentiras. Piedosas ou cobardes, corajosas ou maldosas, escondem-nos ou mostram-nos para não haver dúvidas de que somos reais. Deixasse de conseguir mentir, disfarçar, fingir ou omitir – farinhas do mesmo saco - e achar-me-ia no céu - quiçá no inferno - no Júlio de Matos ou simplesmente noutro planeta. Posso não te mentir, mas não posso não te poder mentir, ok? É a fuga, o crime perfeito!

 As minhas mãos não marcariam compasso na mesa para resistir dançar com as tuas, os meus olhos não fugiriam dos teus intermitentemente, a minha boca não diria as coisas certas, os meus pés não se manteriam timidamente no seu cantinho… Não teria desligado a chamada, não te teria dito que está tudo bem, nem sequer teria desistido de ti. Talvez o meu pecado não seja a mentira, mas a omissão. Escondo-te a alma, a que brilha nos olhos quando encontram os teus e vibra no corpo quando te sente por perto ou mesmo a caminho. Não, prefiro mentir-me a ver-me louca.

Era uma vez um menino que gostava de brincar às escondidas porque sabia que podia sempre afastar-se e voltar a casa. Era uma vez um menino que não precisava de mentir nem fugir nem fingir porque o seu coração ainda tinha asas. 

sexta-feira, 4 de julho de 2014




Porque os deuses devem estar loucos...


(tão depressa chove como faz sol... e o que isso diz sobre nós?)



O comboio das estações leva-me até à Primavera. No caminho vejo a chuva a cair, as árvores despidas, os agasalhos, as botas, os ombros junto às orelhas, as marrecas que não deixam penetrar o frio... Os cinzas, os castanhos e os escuros predominam, os vultos diluem-se no quadro da estação invernosa... Chora a céu, contraem-se as entranhas, entristece-se a natureza... Só as árvores têm a coragem de se despir... como que a pedir...

A poucos minutos da estação, o sol começa a espreitar. Às vezes penso que a luz ao fundo do túnel é apenas sol... que aquece os corações deprimidos... 

Saio na Primavera e vejo vida, renovação, criação, cor... Alguma razão teriam os romanos ao iniciar o ano em Março... Avisam-me de que só posso permanecer 3 meses, porque, logo depois, o comboio segue para o Verão. Percebi que a Primavera só é possível graças ao Inverno... Como a bonança depois da tempestade... 

No Verão, é o calor, a loucura, a mania da natureza... Mergulha-se na vida em pleno na esperança de encontrar a plenitude na vida...

Se os ciclos da Natureza se traduzissem em ciclos internos nas nossas vidas, para mim, a Primavera seria a Esperança, o Verão a Bonança, o Outono o Balanço e a Reflexão e o Inverno a Depressão. Estações que passam por nós e em nós, que nos diluimos no universo da vida.

O que acontecerá se o Verão deixar de ser Verão e o Inverno deixar de ser Inverno? 
O que acontecerá se a bonança e a depressão se manifestarem esporadicamente, sem sentido, pelas nossas vidas? E se a esperança desaparecer? E o espaço para reflectir? 

Chove, faz sol, desaparece o sol, chove. Ainda dizem que está tudo louco!

Se calhar...

quinta-feira, 3 de julho de 2014


Quarta-feira, 2 de Julho de 2014


No âmbito do projeto "Djunto no ta prendi fazi", apoiado pelo Programa Cidadania Ativa da Fundação Calouste Gulbenkian, a Associação Girassol Solidário apresenta, no espaço ArtCasa, a Exposição "A 11ª Ilha de Cabo Verde".

Este projeto visa capacitar os doentes caboverdianos que estão em Lisboa a fazer tratamentos que não são contemplados ainda em Cabo Verde e que são também voluntários da associação. Tem três valências, como o artigo do jornal cabo-verdiano "A Semana" especifica:

- Formação para a Saúde, ministrada pela Saúde em Português (a qual eu frequentei) para que os voluntários, que são eles próprios doentes evacuados, conheçam melhor as suas doenças e as dos conterrâneos que vão ajudar;

- Intervenção no terreno, para que estes voluntários conheçam todo o percurso e o trabalho dos técnicos no apoio aos doentes evacuados desde que chegam a Portugal e eles próprios intervenham activamente no processo;

- Expressão para a Cidadania, com a formadora Cindy Baptista, onde a expressão artística é facilitadora de processos de auto-conhecimento, reconhecimento e partilha de vivências, emoções e sonhos destes interlocutores, cujos trabalhos constam desta exposição.

A Cindy foi minha colega de pós-graduação, minha companheira na aventura de Cabo Verde e está empenhada, assim como eu, em continuar o caminho que não nos foi possível construir nesse país, o seu de origem. Cidadã do mundo e pintora de sonhos, sabe que as fronteiras são estabelecidas pelo homem, mas que entre almas não existem. As suas e as da sua Maçaroca traduzem-se em pontes que unem o que de mais bonito se faz entre os países que vão morando no seu coração e onde ela vai habitando criativamente. CriAtivamente.

Até 5 de Julho!



referências à terra (enxada) e à música (cavaquinho)


Os trabalhos são todos fantásticos mas seleccionei os dois que identifiquei com a minha CurAção:

Artista: Thierry Chaile
Ilha: São Vicente
Em tratamento desde: Abril 2014
Nome: Amor


Artista: Gonçalo Lima
Ilha: Santo Antão
Tratamento desde: Abril 2013
Nome: Conecta


Um pormenor do trabalho feito com o barro, onde os artistas projectaram as suas vivências

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