quarta-feira, 13 de agosto de 2014


Uns partem...


A. Luta.Contra.O.Cancro. O cancro é a única doença que dá luta? Quando se trata de cancro, perde-se sempre uma luta quando se morre? Há outro tipo de situações, como as mortes por acidente, que trazem outro tipo de expressões, como "não resistir" aos ferimentos ou ao que seja... A comunicação social já tem algumas frases à disposição para determinadas situações difíceis. Consegue servir-se delas sem as atravessar. Sem as sentir. Eufemismos impessoais. Para que a vida possa continuar... RIP (outra destas expressões) Emídio Rangel.

Outros chegam...




Terça-feira, 12 de Agosto de 2014

Ontem e hoje fui fazer dois workshops com o Hugo Marmelada, bailarino português a trabalhar na Noruega e a fazer espectáculos pelo mundo fora. Dança numa Companhia de Dança Contemporânea (podem vê-lo a dançar neste link) mas as suas origens estão no Hip Hop. O resultado é um movimento único e espectacular!

A primeira foto é do ws de Contemporâneo e o vídeo do ws de Hip Hop na Academia Jazzy (não apareço porque estou a gravar, mas foi esta a coreo que estivemos a fazer).


Devo confessar que, durante as duas horas do ws de Hip Hop, estive de dez em dez minutos a pensar em desistir. Saltar e saltitar é talvez do que me custa mais fazer. Um ano depois da quimioterapia, a força ainda deixa muito a desejar e o cérebro dá a ordem mas as pernas não vão à velocidade que se quer. No final da aula, não sei por graça de quem, ainda dei o meu litro e só parei no fim, como costumo pedir aos meus alunos quando dou aulas (às vezes a brincar, às vezes a sério). E correu bem melhor do que poderia prever a avaliar pela primeira hora! Ufa! Amanhã quando acordar logo se vê... Fiquei mais motivada para me pôr em forma no próximo ano porque é difícil ter prazer a dançar quando se luta contra um corpo pesado e lento e às vezes nem me apetece por isso mesmo. A boa notícia é a da memória do corpo, que reconhece os códigos e o vocabulário e, embora estranhe por falta de prática, rapidamente entranha e se lembra do bom que é estar ali. E dançar é assim ser possuído pelo bichinho da música no corpo. E alguma coisa acontece sozinha, com ou menos força e flexibilidade...

Tenho de acrescentar uma nota para as pessoas que às vezes comentam que não se nota que não estou em forma (...). A mim não me preocupa o que parece, preocupa-me que eu não me consiga divertir e tirar partido do momento por estar permanentemente a contrariar o cansaço. Mas já custa muito menos e daqui a um ano vou estar melhor do que estava antes de adoecer: objetivo segundo ano CurAção.



Hugo Marmelada e Rita Spider, duas das referências portuguesas que nos representam a nível internacional. Que bom poder voltar a dançar convosco!!! Life's crazy. And round!

Segunda-feira, 11 de Agosto de 2014

Hoje apenas quero dizer que o mais importante nesta vida é sentirmo-nos bem connosco próprios. Tudo o resto acontece por consequência. Dedicarmo-nos aos outros, fazermos os outros felizes e sermos aceites sem estarmos bem é batota. E de que serve passarmos por cá se não formos felizes?

Certifiquem-se de que são felizes e certifiquem-se de que os vossos o são também. E para isso não chegam as aparências, não servem as aparências e muitas vezes é tudo ao contrário do que aparece.

Não que o que aparece seja mentira. Não acho que o seja. Mas porque a moeda tem dois lados. E interessa aceitar o lado lunar, conviver com a sombra e integrá-la nas nossas vidas. Quando as vidas são mais assombradas do que assolaradas, procura-se a paz do outro lado, onde a luz promete ser maior do que as trevas.

RIP Robin Williams. Porque rir nem sempre é o melhor remédio. Ou pelo menos suficiente.

domingo, 10 de agosto de 2014




Fim-de-semana de Lua Cheia. Cheia. Plena de sonhos e esperança. Cheia de projetos e novos planos. Plena de vida e cheia de nós. A maior Lua de 2014. Venha mais um ano, com novos objetivos a cumprir! Filtros diferentes, novas perspetivas. Mais um ano de vida, mais razões para sorrir :)

Txim txim!

sábado, 9 de agosto de 2014


Durante o ano Curação-em-construção propus-me aceitar novos desafios e experimentar coisas novas apenas por gosto, identificação e/ou aprendizagem, com o significado maior de celebrar a vida. Com especial interesse pelas áreas criativas, a nível profissional, quanto mais eu aprender sobre as mesmas, mais as poderei aplicar nos contextos educativo e terapêutico. Nesse sentido, utilizando as técnicas criativas como mediadores da expressão e crescimento de uma pessoa, um grupo ou sociedade, é mais importante para mim conhecer os materiais e as suas potencialidades do que saber chegar a um produto final artistico. Num contexto terapêutico, o produto final é sempre um resultado da história da pessoa que o produz. 

Por outro lado, se puder desenvolver a sensibilidade artística e até o jeito, tanto melhor porque também aprecio produtos que obedecem a uma estética e que servem uma história a ser contada. Até fazer a pós-graduação em técnicas expressivas (2011), era incapaz de desenhar, pintar ou enveredar pelas artes plásticas. Assim que me permiti experimentar sem pensar no resultado final, todo um novo mundo se abriu à minha frente, com ou sem jeito. 

Ontem aprendi mais umas coisas no que diz respeito à caracterização de personagens, neste caso, para uma peça de teatro-musical protagonizada por crianças no contexto de um workshop de Verão de musicais infantis realizado na Arte Move pelos professores de teatro e dança, Pessoa Júnior e Paula Careto. Já tinha tido contacto com estes materiais no ãmbito das actividades comunitárias desenvolvidas em Cabo Verde, num contexto de animação infantil. É interessante ver como os mesmos materiais podem servir contextos e objetivos diferentes.

E os nossos meninos transformaram-se em verdadeiros animais da floresta na história do Rei Leão. "Eu mal posso esperar para ser rei!" cantavam os meninos que mal podem esperar por continuar a crescer e a participar em actividades que promovem o seu desenvolvimento artístico e pessoal. 

Na parte da caracterização, créditos do Pessoa Júnior. Ajudei nas cores base mas ele fez a arte e a magia! Obrigada Arte Move por estes desafios e aventuras!

sexta-feira, 8 de agosto de 2014


Quando decidi ir para Cabo Verde, em 2011, mal eu sabia para onde esse avião me iria verdadeiramente levar... uma viagem sem retorno. Renascer. Começar de novo. Já estava a sentir a experiência sem saber que era apenas o primeiro passo num caminho longo, sinuoso, que passaria por um cancro e me levaria até onde me encontro neste momento. Partilho convosco o registo do meu primeiro dia desta aventura em CV. Está tudo aqui nestas palavras... despir-me... Despi-me... Mas a vida iria levar-me a despir muito, mas muito mais!

20/11/2011

Bichos… manifestações de vida que conseguem perturbar o juízo de qualquer parte de mim, desde que fui levada a acreditar que o seu lugar não seria dentro das mesmas quatro paredes onde tento dormir. Dormir… com o estranho bicho que teima em cantar algures perto dos meus pés. Não o vejo, não o procuro, olhos que não vêem para o coração não acordar a inquietação que evita manifestar-se  a todo o custo, mas que já foge nestas palavras. Podes voltar a ressonar ao meu lado; estás perdoado! Eu é que ainda não me perdoei por ter dispensado esse privilégio!


(e canta a Alicia Chaves neste momento: “…and i pray for forgiveness as it’s hard for me to pretend”)

Quando pensei em voltar a dividir casa com alguém, (...) não me ocorreu que as discussões fossem apenas nós que se criam num cordão que une umbigos que se estão a conhecer e reconhecer permanentemente, nós de marinheiros embarcados nas naus da Tormenta e da Boa Esperança. E que esses nós têm o poder de unir e separar ao mesmo tempo, o que não deixa de ser uma questão de opção. O que não é opção é o confronto. E perante o confronto há então a opção. Ficar ou retirar.

Tormenta ou Esperança? Meio cheio, meio vazio? Por que choro rodeada de sorrisos? Porque o desconhecido se apresenta sempre despido e habituaram-nos a vestir tantos trapos sem os quais já não podemos passar. Já não sei ver-me despida. Bem, só devo ter sabido o que isso era no momento em que nasci e regredir assim tanto é doloroso, porque neste novo parto sou parteira, sou parturiente e sou nubente. Claro que tinha de chorar! Estou viva, não é esse o primeiro sinal? Mas claro que não posso só chorar, senão nem “a ferros” o parto se dá! (Mas por que raio nasci outra vez e tenho outra vez uma cama vazia ao meu lado? Oh Karma, que merda é esta?)

Assim, despir-me de máquinas, mecanismos, bengalas, conceitos e preconceitos, hábitos e manias, roupagens do novo mundo que, de velho, se esqueceu de gatinhar, de dar primeiros passos,  de brincar… foi o que pedi semiconscientemente de há uns tempos para cá…  e o que des-pedi assim que aqui cheguei!! Oh tempo, volta para trás!

O que leva a D. Dulce a vir dar-me um abraço, a convidar-me para dormir na casa dela, a D. Marina a oferecer-me o jantar, o Félix a pintar estas paredes antes de me conhecer? Por que teima este bicho não identificado em cantar desde as 3h da manhã no meu quarto? Por que está a cama do lado vazia? Por que está o espaço ao meu lado vazio? Por que está a minha bexiga cheia para não me mijar de medo na “sala di banho” do outro lado da estrada de terra batida?

Quando a D. Dulce bate à porta a avisar de que a luz já tinha voltado e que podia apagar as velas que me orientaram nas primeiras horas depois de o sol se pôr, disse-lhe em tom de brincadeira desesperada “ah, afinal há luz! Quiseram dar-me as boas vindas da praxe!” Não tinha eu esperado que procurar a minha Luz pudesse ser TÃO LITERAL como caminhar às escuras de vela na mão num sítio completamente  desconhecido. Jantar à luz das velas. Bem, se é para voltar a vivenciar a Natureza, nada melhor do que ser recebida coma luz do fogo, que queima e transforma, em vez da lâmpada, confortável, mas estática… Não era essa a ideia?

Quem sabe descubra outro Fogo em mim. A jornada começou. Nem posso pedir para acordar e descobrir que foi só um sonho porque ainda não dormi e as galinhas já cantam há algumas horas!

To the shake of an earthquake, I will never fall. That’s how strong my Love is…” canta a Alicia enquanto termino estas palavras… Smile. Não está tudo bem, mas está tudo certo. O que é isso do “tudo bem?” 8h. O bicho calou-se. 

A Jornada tinha mesmo começado! A Jornada que escolhi começar...

(adoeci precisamente um ano depois, na sequência de um ano tão duro como fascinante, e voei de CV para o Hospital de Cascais)

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