sexta-feira, 1 de agosto de 2014


No exercício de recuperar escritos antigos, às vezes deparo-me com coisas que me causam estranheza e com as quais já não me identifico - raramente me deparo com exercícios de criatividade que considere iluminados ou perto de brilhantes - mas é engraçado ver as diferenças, porque a vida e as experiências por que passamos fazem-nos passar a ver as mesmas coisas com outros olhos (e pernas e cabelos e afins). Como eu via o medo em 2008? Que bicho era esse? Que questões me trazia?


Hoje acrescentaria: "O doente ou o saudável? O normal ou o patológico?"

Como diz a Maguita, "o medo está onde está o ser humano"...

quinta-feira, 31 de julho de 2014


Hoje foi dia de despedida para as férias no CRID, onde colaboro com sessões de Dança Educativa/Terapêutica. Este post retrata o momento de festa no jardim, onde se interagiu com a água. E era ver a felicidade no rosto dos clientes e técnicos desta associação na partilha destes momentos!

A felicidade está no sentir, nos sentidos e nos momentos sentidos. Curiosamente também a vida.


Quarta-feira, 30 de Julho de 2014



Hoje lembrei-me do Sr.Carlos. Everybody hurts... Feliz pela música o ter ajudado a expressar a sua dor mas mais feliz por me ter deixado esta aprendizagem. No hospital somos todos iguais, não há títulos nem hierarquias nem protagonismos... Na vida, everybody cries...


Um abraço ao Sr. Carlos esteja ele onde estiver, neste plano ou no outro...

terça-feira, 29 de julho de 2014


Apresento-vos o livro que me iluminou o caminho. Nas noites entre hibernamentos que passei em casa, ficava horas na cama com o computador no colo, a pesquisar e a ler o que me pudesse ser útil para lidar com as dores, os sintomas, o medo e a ansiedade, mas sobretudo para entender o que me estava a acontecer e não me sentir sozinha. Encontrei este livro no Amazon, comprei a versão kindle mas logo encomendei o livro em papel. Hoje estou a revisitá-lo.

É o testemunho de uma sobrevivente de um linfoma mas, mais do que isso, é uma história de vida. Aliás, o que mais me fascina é precisamente ser uma história de vida e não uma história da doença. Para lá do lado espiritual da experiência da Anita Moorjani - near-death experience - os dados clínicos comprovam que: depois de 4 anos de luta contra o cancro, entrou em coma, os seus órgãos já tinham entrado em falência e a sua vida estava por umas horas. Depois do coma, o cancro entrou em remissão e o seu corpo recuperou das lesões clinicamente irreversíveis. Em pouco tempo estava curada. 

Trata-se do testemunho de uma pessoa que se curou miraculosamente e que vem partilhar a sua aprendizagem. Respeito muito o que nos diz porque são frases que surgem de uma vivência directa, independentemente da interpretação que cada um pode fazer do que nos conta. Sei o que é dizer coisas que podem parecer apenas modas e frases bonitas, mas que vêm do mais profundo sentir e de um saber profundo e intuitivo que não é propriamente testável e mensurável. E seria tão bom poder usufruir da aprendizagem sem ter de passar pela situação limite! Eu aprendi que, no limite, as coisas se tornam óbvias mas que essas mesmas lições são aplicáveis aos aspectos mais simples da vida (tema para outro post).

Li o livro em inglês e, um ano depois, saíu a tradução portuguesa. Não li em português mas continuo a preferir o título em inglês porque me identifico com a expressão que a autora escolheu: "Dying To Be Me" ou, na versão espanhola, "Morir para ser Yo". Também sinto que uma das vantagens de ter estado alegadamente perto da morte foi a de me permitir escolher um caminho mais genuíno e verdadeiro, de acordo com quem sou e com aquilo em que acredito. Ou seja, morrer para poder escolher ser EU e mais ninguém. No caso da Anita, é mais literal porque foi praticamente dada como morta e esteve objectiva ou subjectivamente "do outro lado" (experiência quase-morte). 





A sinopse centra as atenções na experiência espiritual, a forma que a tomada de consciência da autora assumiu, mas penso que o livro nos permite um entendimento mais alargado da função da doença na história da sua vida. A Anita é asiática, tem influências culturais tão diferentes das minhas e, ainda assim, é possível identificar-me com as suas emoções e o seu percurso.

A leitura deste testemunho tranquilizou-me. Só tenho de pôr a energia na manifestação da pessoa que sou. É tudo muito mais simples do que parece. A cura está ao alcance de qualquer pessoa, mas é individual e está relacionada com as suas escolhas.  Ao mesmo tempo também é colectiva porque somos todos parte da "great tapestry", "big picture", do UNIverso. Umas semanas depois nasceu o CurAção, onde o meu caminho se cruza com o de outros que também estão no caminho da cura, seja física, pessoal, social ou global. 

No facebook da autora:




segunda-feira, 28 de julho de 2014


Penso já ter escrito sobre isto... A verdade é que este blog é muito espontâneo e não é propriamente organizado ou planeado. Hoje impera reforçar esta questão.

Quando os médicos dizem "A sua doença NÃO TEM CURA", o que eles querem dizer é: "Nós, os médicos, não conhecemos uma solução efectiva para o seu problema, o que não quer dizer que ela não exista."

É que quando uma pessoa a quem se atribui o conhecimento/poder absoluto sobre a saúde de outra lhe diz que a sua doença é INCURÁVEL devia ter noção do que isso provoca no outro e na sua própria saúde/doença (psico-somática). Para mim, funciona mais ou menos assim:


E eu levanto esta questão: Se o nosso corpo percorre o caminho da saúde até à doença, por que não será capaz de fazer o caminho de volta? Tenho dificuldade em entender o conceito de incurável e de doente "para sempre", vulgo crónico. Mas mais me preocupa as consequências da interiorização e a incorporação (somatização) dos mesmos por parte do doente (e eu trabalho com algumas pessoas com doenças crónicas). 



Quando entrei no hospital, decidi que estaria de passagem e que não queria repetir-me "para sempre" como muitas das pessoas que por fui conhecendo. Passados seis meses, quando a minha médica me tentou, numa última tentativa, convencer a fazer o transplante de medula, disse-me que era a única hipótese que teria de cura e relembrou-me que o meu diagnóstico reportava a uma situação muito grave, com valores de sobrevida de 9 meses. Saí de lá a chorar, de rastos, mas sobretudo o sentimento era de impotência sobre os argumentos que me apresentava. Impotência! E impotência não gera saúde! Faz-me recordar o termo da Psicologia Learned Helplessness ou Desamparo Aprendido. Resumidamente, diz respeito a uma pessoa que aprende a dar uma resposta de impotência perante determinada situação e não consegue dar uma resposta diferente mesmo que tenha oportunidade para tal porque foi aquela a aprendizagem que fez com estímulos anteriores. (procurem o termo e o autor, Seligman, no google)

Naquele dia senti-me tão pequenina e impotente que a minha resposta foi essa mesma, por repetição, por estar integrada num sistema que me leva a aceitar aquela inevitabilidade da verdade médico-científica.

Mas, exactamente por ter um espírito irritantemente cientístico (para lá de científico), e com a devida distância, fui recuperar-me e pensar no assunto, recorrendo aos dois lados do conhecimento, o intuitivo e o científico (da minha literatura e da minha formação). Aquele medo não era meu. A impotência não era minha. Eu acreditava no que vos descrevi no início deste post. A minha médica, sim, sentir-se-ia eventualmente impotente perante a minha escolha "suicida" (dentro do seu paradigma e do seu conhecimento). Foi a sua tentativa desesperada que fez ressonãncia no meu próprio desespero. E foi assim, com esta tomada de consciência, que acordei da dormência emocional e recuperei a minha "potência" e capacidade de agir e assumi a minha escolha e o meu caminho. Ainda penei bastante para percorrer este caminho que vai da escolha dos outros até à minha. Mas é tão libertador!

Já passaram 12 meses - quase 13 - desde que renunciei a mais um ano de internamentos e doença e escolhi a saúde. Provavelmente ainda estaria porque o processo de um alo-transplante (para receber a medula de um dador compatível) é muito moroso. A mensagem que quero passar é a de que: os médicos são humanos e tudo o que nos dizem não é apenas resultado de uma verdade inquestionável. Tudo na ciência é questionável porque fazer ciência é questionar. Todas as ciências e todos nós - cientistas, juízes e loucos em causa própria - temos visões reducionistas, ou seja, temos o nosso ponto de vista. A medicina também.

Cuidado com o fantasma chamado "Não tem cura!" e outro chamado "Doença crónica" ou outro também que tem o nome de "Estado terminal" ou ainda o "estável, controlado (mas doente para sempre)". Se há tantos rótulos por aí, escolham um positivo e que vos represente! E sejam felizes!

sábado, 26 de julho de 2014


Estamos na época da estimulAção. Os estímulos são hipervalorizados porque, se não somos estimulados, não nos desenvolvemos, nem vamos para algum lado. As crianças precisam de estímulos para se desanharem novas sinapses e novas aprendizagens, os adultos para se sentirem preenchidos, diria.

Não há dúvida da importância do estímulo. Um estímulo pode levar-nos a sair da nossa zona de conforto. Mas... e quando o não-estímulo é que nos leva mesmo a sair da nossa zona de conforto? E por que raio agora toda a gente decidiu que temos de sair da zona do conforto?

Pois hoje foi dia de sofá. SO-sesta-FÁ. Do ré mim FÁ. Sou FÁ. Sol Fá. SÓ-FÁ. SÓ.

O problema de acharmos que temos de estar sempre a sair da zona de conforto é o de corrermos o risco de não nos permitirmos voltar a ela, a zona do conforto. Arranjem um SÓ-FÁ confortável e confortem-se sem culpa.

Agora falando mais directamente para os sobreviventes, subviventes, ainda viventes, poliviventes que, como eu, viram ou vêm a vida por um fio ou por um tubinho que já nem túnel se pode chamar. A valorização da vida como ela é, mas também como ela era ou como poderá vir a ser pode levar-nos a cair na necessidade de beber tudo o que a mesma vida nos pode dar ou a querermos dar tudo à própria vida, para que esta não se esqueça de nós no momento do juízo final. Dar cartas. Dar provas. Dar o litro. Dar.

Reconheço que este ano para mim foi um ano de compensAção, de viver do que estive privada durante o hibernamento. Mas às vezes só faz falta estar para poder receber. E primeiro de nós mesmos. SÓ. FÁ.

(imagem google)
P.S. O sofá foi literal para mim mas o SÓ-FÁ pode representar apenas o tempo para estar, para parar, para o recolhimento... Cada um encontrará o seu espaço e o seu tempo dentro do seu estilo e exigências de vida.


INSTAGRAM