quinta-feira, 7 de novembro de 2013

quarta-feira, 6 de novembro de 2013


Que voz te disse que aquele seria o momento para interromper (os tratamentos convencionais)? D.G.

Esta voz pode assumir várias formas, desde uma sensação, a  um pensamento, uma imagem. O nosso inconsciente - ou o sexto sentido - pode manifestar-se de várias maneiras. Esta voz representa o que no fundo acredito ser o melhor para mim e o que sinto que o meu corpo necessita e pede. Não é muito fácil chegar lá, porque não somos treinados a ter este diálogo interno, mas penso que todos podemos identificar situações em que queremos tomar decisões racionais que entram em conflito com o que de facto sentimos. E quando perdemos noites de sono com isso, se calhar, convém ouvir porque há uma sabedoria intuitiva de onde podemos tirar todas as respostas de que necessitamos.

A minha decisão está relacionada com a minha formação profissional, as pesquisas e leituras que fiz sobre o assunto, toda a informação disponibilizada pelos técnicos de saúde que consultei, as coisas que vi e tudo o que vivi, tanto no processo de doença como até lá e sobretudo a relação que fui construindo com o meu corpo. Portanto essa "voz" não me surge do Além, mas do Amén àquela que é a minha experiência, que não é a do outro, embora me tenha ajudado o testemunho dos outros. E muito.

A dificuldade está na identificação dessa voz como tua porque há muitas vozes dentro da nossa cabeça, a maior parte constituem ecos do discurso de todos os outros que andam à nossa volta, tanto no momento presente como sob a forma de crenças que se foram sedimentando e que resultam das formatações familiar, educacional e social. Ainda há a voz das emoções e, principalmente, a voz do medo! Ora, este cocktail é explosivo e chegamos ao ponto em que já não sabemos o que fazer... ou somos impulsivos e agimos com uma base pseudo-racional que se torna perigosa quando é mais emocional do que outra coisa. Por exemplo, eu posso tomar a decisão racional de seguir o que diz o médico, mesmo que não esteja de acordo com a minha experiência, porque sinto medo. Ora eu decidi que a minha escolha não haveria de ser emocional e por isso vivi as emoções que tinha de viver, queimei os neurónios que tinha de queimar e esperei que estas vozes se calassem para ouvir a outra, a verdadeira, a que vem do coração, lá do fundo, e que acredito ser o resultado do que sou (repito que o que sou também inclui fundamentação teórico-prática e tem tradução material).

O medo tem uma voz enoooorme, faz muito barulho e não te deixa ouvir mais nada. Deixa-o falar, ouve e depois deixa-o ir. Investiga e procura as respostas que existem e que estão de acordo com o que és e sentes. Podemos ser surpreendidos pela positiva quando descobrimos que já existe muito trabalho desenvolvido noutros sentidos que não são o do paradigma vigente e que resultou da experiência de pessoas que não encontraram as respostas de que necessitavam nesse mesmo paradigma e desenvolveram outro, muitos deles médicos. E hoje acredito que somos resultado do que "sentimos", mas não falo de emoções. Falo de intuição. E para mim esta é que é a decisão coerente e racional. Intuição e conhecimento. As emoções só devem ser valorizadas no sentido em que podem traduzir-se no corpo e concorrer para melhorar ou piorar a situação de saúde. E isto não é "psicológico" no sentido em que é "da imaginação". Existe mesmo uma tradução química e fisiológica para todo esse mundo do psicológico e imaginário e investigação científica nesse sentido, embora oiça recorrentemente o "não está provado cientificamente mas..." como quem diz "não acredito em bruxas, mas que las hay hay". Se calhar não estão a procurar.

Para não ficarmos apenas pela conversa, uma vez que esta é resultado da minha experiência, vou tentar concretizar.


Quando é que eu soube? Fui tendo sinais. O ponto de viragem acho que foi no meu dia de anos, 3 ou 4 dias depois de sair do hospital do último internamento! E foi depois de passar o meu primeiro mês fora do hospital! Foi como se tivesse saído do filme e a minha energia voltasse a mim, com cada vez mais força! Tive de me distanciar! Comecei a sentir e a dizer aos outros "Sinto-me curada. O meu corpo ainda está aqui, mas a minha cabeça já está lá à frente!" Isto foi crescendo dentro de mim. Ainda fiz um tratamento em ambulatório, mas já não me sentia doente, embora me encontrasse ainda muito debilitada. Continuava pendente a decisão do transplante porque estavam à procura de dador. Depois houve um dia, de consulta, em que atravessei um corredor do hospital, senti uma coisa no estômago e a palavra "não" na minha cabeça, como se o caminho já não fosse por ali. Desde que saí do hospital até tomar a decisão de não completar os tratamentos e não fazer o transplante, passaram-se 2 meses, porque dentro de mim não foi pacífico. Tinha mais medo de "ir contra o sistema", do confronto, do que propriamente do risco das minhas escolhas!!! Percebi, quando me foi dito que havia um dador, que a vida me tinha posto numa encruzilhada para finalmente me aceitar como sou, com as minhas convicções, que não são as do sistema em vigor. E percebi que não havia outra resposta senão a que estava de acordo com o que sou, sinto e conheço. Tinha duas opções: ou quimioterapia ou quimio+transplante. Ainda foi preciso a médica falar dos 9 meses de vida, da gravidade da minha doença e da inevitabilidade do transplante e deixar-me de rastos, do tamanho de uma formiga, para me zangar com aquilo tudo e perceber que não tinha de me zangar, mas sim que a vida me estava a obrigar a decidir e não a encontrar um compromisso entre os dois mundos só para fugir ao confronto. Nada daquilo me fazia já sentido e olhava para tudo à volta com o sentimento de que já tinha cumprido o meu caminho ali. Já nem conseguia visualizar-me mais ali. Também decidi que não queria uma medicina do medo, quando entrei lá bem e saí de lá assustada. Senti que aquilo não era saúde. Na semana seguinte, disse à médica que a minha hipótese era a terceira, não só não ia fazer o transplante, como não ia fazer mais nenhum tratamento, porque, uma vez em remissão e tendo em conta o estado em que se encontrava o meu corpo, preferia começar um trabalho de reconstrução em vez de continuar a destruir e a combater. O combate não me fazia sentido, porque não sentia o cancro como inimigo. Surpresa das surpresas, ela aceitou a minha decisão, respeitou e disse que queria continuar a acompanhar-me. No fundo o meu medo era o de abandono: se eu não faço o que ela quer, ela abandona-me! e isso não aconteceu! E uma coisa era certa, eu não estava a põr em causa o trabalho dela, mas estava a agir de acordo com o meu, no papel de doente.

Antes de comunicar a minha decisão, andei uma semana a "bater mal". "Por que não sou como a maioria das pessoas? Por que não aceito o que me dizem?" No fundo eu sabia o que tinha de fazer, o tal "guia interno" de que falas no teu email, mas faltava-me a coragem. E se? E se? Depois percebi que só havia uma hipótese: a minha. Se tiver uma recaída, logo sentirei o que é melhor para mim e agirei em consonância com isso. Estes 6 meses fora do hospital são meus, já ninguém mos tira.

Que voz me disse? A minha, mas a que vem lá do fundinho do coração.





terça-feira, 5 de novembro de 2013


Post inspirado na peça "Feio" da companhia Palco 13, em exibição até ao final do mês de Novembro, no Auditório F. Lopes Graça/Parque Palmela, em Cascais. 

Por que é importante sermos bonitos? Parafraseando a minha amiga Jô, quem é que inventou que tinha de ser assim? Temos de ser assim, temos de fazer assado, temos de corresponder às expectativas, temos de ter a casa sempre arrumada, temos de estar sempre a produzir e a reproduzir e ainda a pós-produzir porque a coisa ainda não está certa. Quem é que inventou que tinha de ser assim, que a vida era isto e que o texto era este? 

É importante sermos bonitos, por dentro e por fora - e arredores! E agora a coisa ainda se torna pior porque, como a beleza vende de uma forma doida (e varrida), e anda meio mundo mal cotado no mercado porque não dá para todos, anda uma (menos) bela parte da população a reivindicar a importância da beleza interior. O que interessa é a beleza interior! Ora bolas, continuo a ter de ser bonita! E a trabalheira que isso dá! (até descobrir que a trabalheira na frase "ter de ser bonita" não está no "ser bonita" mas no "ter de"). Quem é que inventou os deveres e os teres de desta história?

Pois, fomos nós, nós todos, o sistema! Eu gosto de gente bonita e de paisagens bonitas e de coisas bonitas. Não gosto de feios, porcos e maus e depois também não gosto de uma data de coisas feias minhas e tuas e nossas. É assim. Gosto de ter tudo no sítio, mas, às muitas vezes, não tenho nada no tal sítio, esse que vem no programa. Conforme a sitiação. Mas quem sou eu para dizer que o menino é feio quando se porta mal? Quem sou eu para dizer que não interessas nem ao menino Jesus, o mais bonito dos bonitos? Quem és tu, Pai do Natal, para só presenteares os meninos bonitos, os que se portam bem? Quem escreveu o manual do bonito comportamento? Quem desenhou as caras bonitas e os corpos perfeitos?

Eu gosto de ser bonita, não gosto de ser feia. E gosto de coisas bonitas, os olhos também enchem a barriga. Mas hoje quero elogiar a minha parte feia! Sim, sou feia, e tu então ainda és mais feio se não me quiseres feia! (Digo-te já que isso não seria nada bonito!)

Bom, mas só sou bonita e/ou feia porque alguém inventou classificar-nos assim e que essa classificação teria repercussões em tudo o resto. A verdade é que é assim! Se alguém vier agora reinventar isto e decidir que o importante é SER e que nesta matéria devemos abster-nos de julgamentos, o que será que acontece?

Constituirá o sentido estético uma programação biológica do criador? Se calhar, é isso. O mais bonito é o que sobrevive, nem que isso resulte em dias em que tem de se fazer cara feia aos adversários. Pois é, também não sobrevive quem for bonito todos os dias!

Se apreendemos o mundo pelos sentidos, queremos o bonito. É legítimo. O feio incomoda. Perturba os ouvidos, fere as mãos e cega os olhos (se bem que não sei o que é que cega mais os olhos, se o feio se o bonito). Mas sem incómodos não mudamos de lugar e não chegamos a mais lado nenhum, senão este, o do concurso de beleza - world peace, :) e Y. Por outro lado, somos o todo e não as partes, mas também as partes. 

Por que é importante sermos bonitos? Comecemos pelo nariz, a parte mais saliente da cara...

Posto isto, não vou dizer se a peça é bonita ou feia. Vão ver!





segunda-feira, 4 de novembro de 2013


O amor é assim uma coisa que traz muita responsabilidade, ainda mais para alguém como eu que se mune de todos os artifícios para não ter de o pôr em palavras - daquelas que se ouvem. Ainda assim o amor é a coisa mais fácil do mundo, vem e vai e fica e sai... ou vem e fica e pronto. O amor é uma coisa muito séria, existe por si só (ou para que nunca estejamos sós) e lá vai ele, por aí fora (ou por aqui a dentro)... Ai de quem o agarrar... O amor é assim uma coisa de responsabilidade. Se o tomas não o podes largar. Não o podes largar antes que te largue. E ainda que te largue não o largas. O amor faz parte. E cura. E cura-me. E cura-te. Não sou muito responsável, mas não deixo de amar. Faço alguma batota mas não deixo de ter o teu amor. O amor é assim de responsabilidade, porque tens de estar sempre à altura e às vezes nos bicos dos pés. E é ver-nos todos por aí em pontas, à procura do que já é. 

Gosto muito de ti. Daqui para aí, Parabéns! E desculpa o pouquinho que isto é para aquilo que me ensinas... Com amor :)

domingo, 3 de novembro de 2013

Still
 Not still

Corro corro corro para fugir dali. Não olho para trás, o tempo não olha para trás. Tenho as horas nos pés e as mãos coleccionam minutos. Guardo tudo tudo tudo, não sobram segundos. O tempo diz pára, para que olhe para trás, mas foge de mim - de quantos tempos o tempo se faz? Largo tudo para o vento me agarrar. Fecho os olhos. Não quero ver este dia chegar...

Run run run to flee from here. Do not look back, the time does not look back. Feet tick forward, hands collect minutes. Save and savor everything everything everything, leaving no leftover seconds. Time says stop! to look back to it, but it escapes me - how many times can it be done? Drop everything behind waiting for the wind to take hold of me. I close my eyes. I do not want to see this day coming...


sábado, 2 de novembro de 2013


No dia 29-06-2013, disse à Cindy e à Marta que trataram de mim na sessão fotográfica que resultou nas fotos CurAção - perfil e capa do blog e do facebook: "Aproveitem hoje porque é o último dia em que me vêem careca!" Ainda não tinha decidido com a médica o passo seguinte, mas acho que a decisão estava tomada dentro de mim. Já se passaram 4 meses e pretendo manter a profecia. Hoje a Marta ajudou-me a dar mais um passinho neste caminho e participei no seu workshop de auto-maquilhagem, do seu projecto Makeup By Me

Junho 2013:
A Marta criando a base para a Cindy - Maçaroca Educação & Design - pintar.

 Retoques finais

Novembro 2013:
Este foi o clima da sessão de beleza! A linfobabe Sara aqui do lado direito...

Eu e a Marta, depois dos pozinhos mágicos! Mas a magia maior é a de estarmos juntas nisto... Sabemos do que falo :) 

No final da sessão de Junho fui ao Parque Marechal Carmona (Cascais) ver a peça "Soldado Fanfarrão" e hoje, no final da sessão, fui ao Parque Palmela ver a peça "Feio", num dia em que fui tratar de me pôr bonita. Ambas as peças da companhia Palco 13. Fica para outro post, mas, enquanto isso, vão ao teatro!

sexta-feira, 1 de novembro de 2013


Celebrando dois meses de CurA, partilho a minha mandala "EU SOU", que fez parte do meu processo introspectivo no primeiro mês fora do hospital. Assim, no dia 25-05-2013, era tudo isto que andava a acontecer dentro de mim, uma viagem de fora para dentro e de dentro para fora, idas e voltas que me aproximavam e afastavam de mim. Fosse qual fosse o caminho, estava cada vez mais claro para mim que o mais importante era que não me perdesse. Ou que me descobrisse. Ou encontrasse. O mais importante era SER. Quem ou Como Sou é secundário porque não adianta perguntar quem sou se não quiser primeiro apenas Ser. Sou logo existo. E com muito mais força. Contactar com a capacidade de Ser deu-me mais força neste caminho de volta a mim. E mim é saudável.

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