segunda-feira, 21 de outubro de 2013
domingo, 20 de outubro de 2013
Caro Sou-Doutor,
Às vezes posso parecer um bocadinho indisciplinada porque, afinal de contas, o sou-doutor é que tem os livros e os saberes na matéria, mas queria explicar-lhe que os meus livros e os meus mestres ensinaram-me a pensar. Bom, para dizer a verdade, não foi sempre assim, porque não me lembro de me terem torcido o pepino em pequenina para que soubesse que o poder sobre mim própria não está só nos outros, na minha mãe, na Irmã Guida, no Sou-Doutor Alberto J. (o meu otorrino até aos 10 anos, de quem não me recordo nem de uma expressão, gesto ou palavra mas deve ser lapso meu), no Padre Raúl, no Mário Soares, na S'tora Cidalina, na régua da Irmã Laura... Por acaso até estou a ser injusta porque logo no primeiro mês de vida, na incubadora, as enfermeiras da MAC disseram à minha mãe "Ela tem uma força! Temos mulher!" mas as enfermeiras não entram na classe dos Todo-Poderosos desta praça, embora possam ser bastante convincentes com uma agulha na mão...
Bom, mas não me ensinaram na escola, nem nas aulas de "Formação" nas freiras (o que se fazia mesmo naquelas aulas?), que eu sou mais do que um produto dos meus pais, dos meus professores, da minha religião, do meu país e dos seus dirigentes e dos meus sou-doutor's. Eles é que detinham o poder e também não estariam interessados em partilhá-lo. E a mim dava-me jeito ser criança e depender de todas estas vontades, preocupar-me apenas em aprender. E ouvir. Mas quando ouvimos com olhos de pensar, analisamos e começamos a questionar... E o meu lado perguntador manifestou-se na minha sede de conhecimento e aprendizagem... Era tão afoita que não descansava enquanto não aprendesse tudo o que vem nos livros! As respostas às minhas perguntas teriam de estar lá com certeza!
E cheguei à universidade para ser também sou-doutora e finalmente deter o poder, porque ser sou-doutora é que me dá o passaporte para poder vingar na minha vida! Os sou-doutor's é que podem: podem ter subordinados, podem ter dinheiro, podem mandar um bocadinho mais nas suas vidas e na dos outros e mostrar os fantásticos alunos que foram. O sou-doutor representa a liberdade de tantos anos de subordinação.
Por isso, peço-lhe já desculpa se lhe venho trocar as voltas e disser que não... É que houve um engano. Eu não tenho poder sobre ninguém, não sou dona de coisa nenhuma, não tenho casa, nem carro, nem dinheiro, nem empregados, nem há vagas para ser empregada de outro sou-doutor qualquer! Por isso, não me peça, sou-doutor, para ser disciplinada. É que na escola da vida aprendi que ninguém manda em ninguém, mas que sou-doutora é um titulo que reclamo para mim, para a minha responsabilidade, o poder sobre mim própria, as minhas escolhas e principalmente a minha capacidade de pensar! Aprendi a pensar e por isso não posso ser disciplinada a não ser comigo mesma... Desculpe-me sou-doutor! E eu sei que há muitos sou-doutor's por aí enganados a responsabilizar a crise e os sou-doutor's da política pelo estado em que se encontram. É que não lhes explicaram! Espero que não seja o seu caso...
Agradeço a sua atenção no meio da sua vida agitada e não aguardo a sua resposta. Voltarei a contactar assim que me for oportuno.
Com os melhores cumprimentos,
Rita Nobre Luz, mal-empregada, como se vê!
sábado, 19 de outubro de 2013
A ideia de criar um blog - que em si mesmo constitui uma das minhas ações no sentido da cura - não faria sentido sem interAção. Ainda que o projeto CurAção (ainda em construção) não se destine apenas a pessoas que se sintam conectadas com a minha experiência e com o cancro em particular, se o meu testemunho puder chegar a pessoas que estejam a passar pelo mesmo - ou por outro desafio - e acrescentar alguma coisa, tanto melhor. A mim acrescenta-me muito descobrir pessoas e projectos inspiradores. Cada um tem a sua experiência mas esta reflecte-se no colectivo, do familiar ao social, e viceversa. Se somos parte do todo, também somos todos uma parte importante e, somados, multiplicamos o nosso potencial!
Se me fizeres uma pergunta, responderei com um post, que pode ir do mais simples ao mais criativo, conforme o que desperte em mim.
Se quiseres partilhar a tua história, poderei partilhá-la ou responder em particular, como preferires.
Se quiseres desenvolver algum tipo de parceria, propõe!
Se tiveres uma ideia, sugere!
Se precisares de energia curação, diz-põe!
Através do seguinte contacto: curacaoemconstrucao@gmail.com.
E tem sempre presente o lema CurAção: Tudo se transforma!
E tem sempre presente o lema CurAção: Tudo se transforma!
cartão de visita
*decidi assumir que o acordo ortográfico ainda não me assiste, pelo que a palavra ação é a única que o respeita ainda que por mera coincidência!
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
É uma ideia generalizada a de que um cancro ou um acontecimento igualmente marcante nos muda para sempre. Não sei se estou a exagerar, mas é como se esse senhor nos viesse trocar as voltas para deixarmos de sermos quem éramos ou passarmos a ser uma versão melhorada de nós mesmos. Se estávamos a dormir, acordamos. Se andávamos pelos céus, descemos à terra. Tenho a dizer que, embora isso seja tudo um bocadinho verdade, não é bem assim. Para além de que acredito que a hora da verdade não é aquela do período de enamoramento pela vida quando ela ameaça abandonar-nos. Isso não é amor verdadeiro. É uma coisa do ego a dizer: "Gosto tanto de ti, não me abandones!" A hora da verdade é depois, depois de passar o susto e o enamoramento e nos encontrarmos entre essas duas coisas, ou seja, frente a frente com a realidade.
Eu ainda estou meia enamorada, mas a verdade é que já estava. Eu valorizo todos os momentos, mas a verdade é que já valorizava. Eu tenho as minhas convicções mais presentes, mas a verdade é que já as tinha. Então o que mudou? Não mudou. Como eu costumo dizer, fiquei ainda pior! Toda eu dentro de mim ficou mais determinada na sua existência. Tudo aquilo que me fazia sentido agora faz ainda mais! E alguma maluquice que tinha dentro de mim grita de felicidade porque agora então é que não a posso calar! Não aprendeste nada?, pergunta a minha mente... Bom, aprendi pouco, para dizer a verdade. Mas apreendi muito!
Nada do que este ano me trouxe é verdadeiramente novo, mas o que a vida me trouxe foi a oportunidade de SENTIR na pele tudo o que me vagueava pela mente. E é assim que funciona. Criamos a nossa realidade. Se tinha pedido um cancro ao Pai Natal? Não exactamente. Essa não era a forma. Mas o conteúdo veio na mesma: se eu achava que Cabo Verde me ensinava sobre desapego, amor incondicional, humildade, carpe diem, este ano foi a oportunidade de apreender ainda mais, experienciando tudo isso a um nível ainda mais profundo. O meu sentido de missão agigantou-se e não quero saber da crise pela crise, mas do meu papel na minha vida, que há-de tocar inevitavelmente na de outros.
Normalmente fala-se em aprendizagem (não nos livros, mas na gíria) quando ganhamos juízo, quando aprendemos uma lição! A vida dá-nos tau-tau porque não aprendemos de outra forma. Pois a mim ninguém me leva com castigos! Mas, ainda assim, nunca fiando, estou a tratar de aprender algumas coisas, como a pôr os pezinhos no chão e a ser um bocadinho mais racional e metódica. Um bocadinho. Afinal a vida - disfarçada de cancro - trouxe-me de volta às minhas raízes para me relembrar de algumas coisas! Nada de novo, portanto, porque já dizia o Lavoisier que "na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma." E é isto.
P.S. E hoje escrevi este post de madrugada, para me obrigar a não ligar o computador durante um dia. Tem de haver regras por aqui!
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Hoje descobri esta imagem no facebook. E é verdade que, na minha cura, também houve muito suor, algumas lágrimas e, mais recentemente, mar. Longe dos tempos em que mudava de pijama 4 vezes por noite e arranjava umas art&manhas para não ter de mudar também os lençóis da cama ou estar sempre a chamar as auxiliares para o fazer e também dos dias em que as lágrimas ajudavam na limpeza do corpo e da alma, mais recentemente tudo se tornou mais divertido com o regresso ao mar. Para quem viveu sempre ao(s) pé(s) do mar e para quem tem veia de navegador e descobridor - foi há 500 anos, mas podemos sempre reclamar essa herança! - não há nada como mergulhar, até porque as nossas praias começaram a ser utilizadas pelas famílias reais, exatamente com fins terapêuticos. Abaixo, junto alguns benefícios do mar, mas vou-vos contar um segredo: a verdadeira terapia está mesmo em mergulhar na vida. E agora, se estivessem mesmo aqui ao pé de mim, salpicava-vos com umas gotinhas destas águas conquistadoras!
Ilha Deserta, Algarve, Setembro 2013
Com a mommy, dedicadas à talassoterapia!
Do ponto de vista energético:
Conhecida como um dos meios mais eficazes de cura, a água é um veículo de calor ou frio, que aplicada ao corpo, opera modificações que atingem os sistemas nervoso e circulatório, produzindo o equilíbrio térmico do organismo.
O sal é um cristal e, por isso, emite ondas eletromagnéticas que podem ser medidas pelos radiestesistas. Ele tem o mesmo cumprimento da onda de cor violeta, capaz de neutralizar os campos eletromagnéticos negativos.
Sobre a talassoterapia:
O prazer que você sente quando você mergulhar na água do mar não é só devido ao clima de férias e descanso ao seu redor, mas também que a água salgada ajuda a relaxar a tensão e, consequentemente, a dor muscular, porque ele contém brometo.
Nadar em água salgada melhora a circulação sanguínea. Além disso, ele contém potássio serão muito bem recebidos por seu corpo, porque você precisa de sangue após o exercício.
A água salgada também é boa para o sistema nervoso, porque contém magnésio.
Água de sal de sódio contribui para o bom funcionamento do sistema imunológico, que contém cálcio ajuda a manter a força dos ossos.
Iodo, cálcio, ferro, magnésio, sódio, zinco, cobre... são inúmeros os benefícios, mas melhor mesmo é mergulhar...
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Partindo da minha linha de pensamento e das pesquisas que tenho vindo a fazer na área, falo hoje da doença como símbolo, baseado no livro "A Doença como Caminho" de Thorwald Dethlefsen (psicólogo) e Rüdiger Dahlke (médico e psicoterapeuta). E começo por dizer que, como doença, refiro-me ao conjunto de sintomas que é tomado como tal, mais do que propriamente ao nome que se lhe dá. E mais, refiro-me apenas à forma como esses sintomas são percepcionados mais do que à forma que assumem por si só. Por exemplo, a minha mãe hoje tem uma dor num braço que a deixa aflita e condicionada. Interessa-me mais a sua aflição e a forma como descreve o que sente ("parecem mordidelas de cão") do que o diagnóstico em si, porque acredito que aí reside a chave do seu cofre. Mas voltemos atrás.
"A nossa linguagem é psicossomática. (...) O doente ao falar dos seus sintomas corporais costuma descrever um problema psíquico." Para os autores, temos de usar o pensamento simbólico, através de analogias, para entender o que se passa a nível mental e que teve manifestação no corpo, não porque uma situação leve à outra, mas porque os dois planos acontecem em simultâneo, o físico e o mental, e um tem sempre representação no outro. Assim como o Variações dizia que o corpo paga "quando a cabeça não tem juízo", aqui a falta de juízo é reprimida ou remetida para uma "zona de sombra", por "repúdio ou resistência": "o corpo tem de viver aquilo que o indivíduo se escusou a assumir conscientemente." Ou seja, o sintoma físico tem a sua correspondência no plano psíquico, mas a um nível inconsciente. Aqui acrescento que a maior parte das vezes sabemos bem o que nos está "a morder" por dentro, mas não o queremos verbalizar, ou seja, assumir. É um gato escondido com o rabo de fora.
"Aquilo que se manifesta no corpo está também na alma: assim na Terra como no Céu." A proposta dos autores não é eliminar os sintomas por si só, mas aceitar as sombras que neles residem. "Se a ampliação da consciência produzir automaticamente uma modificação subjectiva, pois fantástico", o que normalmente acontece.
E o que fica na sombra? Todos os impulsos difíceis de assumir, muitas vezes alvo de julgamento individual e social e que podem dar a origem a comportamentos não adaptados dos pontos de vista individual e colectivo ou a consequências difíceis de aceitar por parte primeiro do próprio e depois dos outros. Os instintos agressivos e sexuais são dos mais relegados para a sombra, mesmo que a sua saída pudesse passar apenas pelo verbo e não exactamente pela acção, nem sempre possível ou desejável. Mas a agressividade pode ser bem mais perigosa na sombra. "Enquanto a agressividade (ou qualquer outro impulso) permanecer na sombra, subtrai-se à consciência e isso é que a torna perigosa." Não há sol sem sombra. E eu sei como a minha mãe estava irritadaaaa no dia em que o braço quase paralisou. Teria sido conveniente ter dado um murro em alguém? Bom, talvez não fosse a saída adequada, mas como ideia, não era má de assumir. Até porque no campo das ideias tudo é possível. Graças a Deus e à inteligência divina que não nos põe limites na fantasia!
Mas então qual é a dificuldade em chegarmos ao cerne da questão? É que estamos sempre mais ocupados a perseguir culpados e em combater do que em dar tréguas e apaziguar a nossa mente. "Aquele que combate ou que persegue jamais atingirá o seu objectivo". Para além disso, como os sintomas das doenças são "avaliados muito negativamente, tanto pelo indivíduo como pela colectividade, (...) não são vividos e vistos de modo consciente."
Qual é a proposta? "Abstrair-se do sintoma e transpô-lo para o plano psíquico. Escutar com atenção as expressões idiomáticas que nos poderão servir de chave."
"É importante que o indivíduo se deixe perturbar pelo transtorno. Um sintoma não faz mais do que corrigir um desequilíbrio: o hiperactivo vê-se forçado a descansar, o irrequieto é forçado à imobilização, o comunicador compulsivo obrigado a silenciar-se. O sintoma activa o pólo rejeitado. Há que (...) abraçar sem hesitações aquilo que nos é imposto. A doença é sempre crise e toda a crise exige evolução. Qualquer tentativa no sentido de recuperar o estado anterior à doença é prova de ingenuidade ou de tolice. A doença pretende conduzir-nos a conhecer novas zonas desconhecidas e ainda não vividas; quando atendemos ao chamamento de modo consciente e voluntário, damos um sentido à crise."
Agora quem é que vai dizer à minha mãe para ficar um dia com o braço quietinho?
A minha proposta é semelhante mas tem algumas diferenças porque eu entendo um sintoma como um veículo de expressão, da seguinte forma e por esta ordem (e é assim que tenho lidado com os sintomas que têm surgido nos últimos meses que, de outra forma, podiam levar-me a ficar apenas centrada e obcecada com a doença):
Situação (Sintoma) Emoção
e que normalmente aparece assim:
(Situação) Sintoma (Emoção)
com o sintoma a aparecer em neón, a piscar.
O sintoma é o mediador e condutor da expressão que não teve lugar. Através do sintoma é-nos permitido finalmente expressar livremente (ainda que em forma física de bloqueio, porque o conflito psíquico ainda está presente), até porque, enquanto doentes, é um direito que nos assiste. Assim que identifico a minha emoção - facilitada pela sensação proporcionada pelo sintoma - e a situação que me incomoda, trato de mudar a minha crença em relação à mesma, aceitando-a como ela é se não estiver ao meu alcance mudá-la ou agir de acordo com o que pretendo, dentro das minhas possibilidades. E um sintoma que perde protagonismo é um bicho que perde força e se retira de cena. (Mas um dia destes volto a este assunto.)
Termino com a frase dos autores: "A DOENÇA TORNA-NOS SINCEROS".
P.S. Para quem conseguiu chegar a este post scriptum, vou voltar a este livro para vos contar da interpretação dos autores especificamente do cancro.
P.S.2 Peço desculpa à minha mãe por utilizá-la como exemplo, quando me podia ter exposto a mim, mas foi o timing da coisa. Hoje é ela.
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Celebrando 5000 visitas, 45 dias de cura e o princípio desta parceria com a Šara (Shara).
Hoje iniciamos este desafio, Boomerang, um intercâmbio Portugal-EUA,
CurAção e Šara Stranovsky, artista
multifacetada, que não só é minha amiga, como sei que está comigo, esteja em que parte do
planeta estiver. Aprendi com ela a arte de transformar. Partilhámos a “casa rosa” e hoje partilhamos esta vontade de
continuarmos ligadas, sempre a criar. A Šara envia-me uma fotografia e eu escrevo a partir
da sugestão que a imagem me trouxer. Vamos começar…
O mar enrola na areia
Ninguém sabe o que ele
diz
Bate na areia e
desmaia
Porque se sente feliz
(...)
O mar também é casado,
o-ái
O mar também tem
filhinhos
É casado com a areia,
o-ái
E os filhos são os
peixinhos
Esta imagem diz-me muito sobre comunicação e sobretudo
comunicação e relacionamentos afetivos, mas de repente dou por mim a perceber
que estou um pouco distante destes temas, tendo em conta que este ano foi todo
para a saúde. Estou assim como a Šara,
àquela distância do mar. Não se deixa de olhar, mas cá de longe, do cantinho. Até
porque os homens também têm marés. Tocam e fogem. E as mulheres são de luas! O
mar traz e a areia devolve. Palavras leva-as o vento para que o mar as oiça ou
as venha buscar…
Tanta coisa a dizer sobre esta imagem, mas vou roubar as
palavras da Šara, enquanto procurávamos um
nome para este nosso projecto: the energy given always returns. Acredito que
essa seja uma lei universal, pelo que não adianta culpar os outros ou os
eventos que nos caem do céu como se a areia não estivesse casada com o mar e
como se o mar não refletisse o céu e como se as algas não estivessem ali para
contar a história…
Šara, nu ta spera tchuba!



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